Coleiras inteligentes, sensores de atividade e outros dispositivos vestíveis estão começando a levar para a medicina veterinária uma lógica já conhecida na saúde humana: acompanhar determinados dados do organismo e do comportamento ao longo do dia, inclusive quando o animal está em casa.
Hoje, dependendo do dispositivo e da tecnologia utilizada, já é possível acompanhar ou estimar informações como localização, atividade física, períodos de repouso e sono, frequência cardíaca, frequência respiratória e determinados comportamentos, como coçar-se ou lamber-se. Em situações clínicas específicas, sensores vestíveis também podem ser utilizados para monitoramento contínuo da glicose.
O avanço é relevante porque um wearable pode registrar centenas ou milhares de informações entre uma consulta e outra. Entretanto, esses dados devem ser interpretados com cautela: eles podem complementar a observação do responsável e a avaliação do médico-veterinário, mas não substituem exame clínico, diagnóstico ou acompanhamento profissional (Mitek et al., 2022; Zhao et al., 2025).

O que são wearables para pets?
Wearables são dispositivos eletrônicos desenvolvidos para permanecer junto ao corpo do animal durante determinado período. Nos pets, aparecem principalmente na forma de coleiras, módulos acoplados à coleira, peitorais, sensores adesivos ou outros dispositivos vestíveis.
Internamente, eles podem combinar diferentes tecnologias. Acelerômetros identificam movimentos; sistemas de GPS ou outras tecnologias de geolocalização acompanham deslocamentos; sensores de temperatura avaliam alterações térmicas; enquanto técnicas como eletrocardiografia, fotopletismografia, sensores acústicos ou a detecção de pequenas vibrações corporais podem ser utilizadas para obter informações relacionadas ao coração e à respiração.
Algoritmos também conseguem transformar sinais aparentemente simples em informações mais complexas. Um acelerômetro, por exemplo, não “vê” diretamente se um cão está dormindo, caminhando ou se coçando. Ele registra movimentos, e o software tenta reconhecer padrões associados a esses comportamentos (Haghi et al., 2025; Zhao et al., 2025).
O que os wearables para pets já conseguem monitorar?
Localização e deslocamento
Uma das aplicações mais difundidas é o rastreamento da localização do animal. Dispositivos equipados com GPS ou outros sistemas de navegação por satélite podem transmitir sua posição para aplicativos, permitindo que o responsável acompanhe deslocamentos e receba, dependendo do produto, alertas quando o pet deixa uma determinada área.
Essa função tem finalidade principalmente relacionada à localização e segurança, e deve ser diferenciada do monitoramento de saúde. Alguns equipamentos, entretanto, integram rastreamento, atividade física e dados biométricos em um mesmo dispositivo.
Atividade física e mobilidade
O monitoramento de movimento está entre as aplicações mais consolidadas dos wearables veterinários. Acelerômetros conseguem registrar níveis de atividade ao longo do dia, períodos de maior ou menor movimentação e mudanças no padrão habitual do animal.
Essas informações podem ser úteis porque uma alteração de mobilidade nem sempre é percebida imediatamente na rotina. Em cães com osteoartrite, por exemplo, estudos vêm investigando o uso de sensores para acompanhar atividade e repouso longitudinalmente. Uma série de casos publicada em 2025 encontrou alterações nos padrões de atividade relacionadas a episódios clínicos de osteoartrite e recuperação, embora o número de animais tenha sido pequeno e os próprios autores ressaltem a necessidade de estudos maiores (Sacoor et al., 2025).
Isso não significa que uma redução de atividade indique automaticamente dor ou doença. Calor, mudança de rotina, idade, ambiente, comportamento e diversos outros fatores também modificam quanto um animal se movimenta. O valor do dado está principalmente na análise da tendência ao longo do tempo e em conjunto com outras informações clínicas.
Sono e períodos de repouso
Alguns wearables também conseguem estimar quanto tempo o animal passa ativo, em repouso ou dormindo.
Em cães, pesquisas comparando sensores vestíveis com observação comportamental demonstraram potencial para acompanhar sono e atividade, embora a capacidade de classificar cada momento individualmente não seja perfeita. Em um estudo com coleiras inteligentes, os valores totais de sono e atividade apresentaram resultados promissores quando comparados à observação direta, mas houve diferenças na classificação de determinados comportamentos (Schork et al., 2023).
Por isso, informações como “horas de sono” fornecidas por um aplicativo devem ser entendidas como estimativas produzidas por sensores e algoritmos, e não como equivalentes a exames específicos utilizados para estudar o sono.
Mesmo assim, acompanhar a rotina de descanso pode ser interessante. Mudanças persistentes no padrão individual podem fornecer uma informação adicional ao responsável e ao médico-veterinário.
Frequência cardíaca
Wearables veterinários mais avançados já conseguem registrar a frequência cardíaca de cães.
As tecnologias empregadas variam. Alguns equipamentos analisam sinais elétricos ou ópticos, enquanto outros detectam pequenas vibrações produzidas pelos batimentos cardíacos.
Um estudo comparando uma coleira inteligente com monitorização por Holter em cães saudáveis encontrou potencial para estimar a frequência cardíaca média ao longo de 24 horas. Entretanto, medições de períodos curtos tiveram concordância inferior e o equipamento não produziu dados em parte considerável do período analisado (Gunasekaran & Sanders, 2025).
Outro estudo de grande escala publicado em 2025 acompanhou 703 cães aparentemente saudáveis utilizando um dispositivo biométrico em ambiente domiciliar. Os pesquisadores conseguiram analisar longitudinalmente frequências cardíaca e respiratória em repouso e observar diferenças associadas a fatores como idade, horário do dia, estação, peso e raça (Chetboul et al., 2025).
Esses resultados mostram uma característica importante dos wearables: muitas vezes, acompanhar o padrão individual ao longo de semanas ou meses pode ser mais informativo do que observar isoladamente um único número.
Frequência respiratória
A frequência respiratória também pode ser monitorada por determinados dispositivos.
Essa aplicação chama atenção principalmente porque mudanças na respiração em repouso podem ter relevância clínica em algumas condições, especialmente cardiorrespiratórias. Pesquisas recentes vêm avaliando coleiras e sensores capazes de realizar essa medição automaticamente.
Em 2025, um estudo com uma coleira inteligente encontrou boa concordância entre a frequência respiratória em repouso registrada pelo sistema e a contagem realizada manualmente em cães aparentemente saudáveis (Murphy et al., 2025). Outro trabalho mostrou que um dispositivo em forma de peitoral conseguiu acompanhar tendências de frequência cardíaca e respiratória em cães hospitalizados, mas apresentou variabilidade suficiente para que os pesquisadores recomendassem confirmação manual antes de decisões clínicas (Warhoe et al., 2025).
Esse é um bom exemplo de como a tecnologia deve ser utilizada: como uma fonte adicional de informação, e não necessariamente como substituta das medições clínicas convencionais.
Temperatura
Sensores de temperatura também estão presentes em alguns equipamentos, mas esse dado exige ainda mais cautela.
A temperatura registrada externamente pelo wearable não necessariamente corresponde à temperatura corporal central medida durante a avaliação veterinária. Pelagem, posicionamento do equipamento, anatomia do animal e condições ambientais podem interferir no resultado.
No estudo de Warhoe et al. (2025), por exemplo, um peitoral sem fio subestimou a temperatura em comparação à medição manual, e o comprimento da pelagem influenciou os resultados.
Dessa forma, a identificação de tendências de temperatura pode ser interessante em determinados sistemas, mas um número apresentado pela coleira não deve ser interpretado automaticamente como confirmação de febre ou ausência dela.
Coçar, lamber e outros comportamentos
Um dos campos mais interessantes é o reconhecimento automático de comportamentos.
Acelerômetros associados a algoritmos podem identificar padrões de movimento relacionados a comportamentos como coçar-se, lamber-se, caminhar, correr e descansar. Tecnologias mais recentes também tentam reconhecer alimentação, ingestão de água e alterações de postura, embora a capacidade e a precisão dependam muito do equipamento (Haghi et al., 2025).
Na dermatologia veterinária, isso já começa a gerar dados particularmente interessantes. Um estudo publicado em 2025 analisou informações de 1.803 cães e demonstrou que acelerômetros instalados em coleiras conseguiram detectar reduções em comportamentos relacionados ao prurido, principalmente coçar e lamber, após intervenções terapêuticas (O'Rourke et al., 2025).
Para um responsável, pode ser difícil saber se o cão está se coçando 20%, 30% ou 40% menos ao longo de várias semanas. Um sensor capaz de quantificar esse comportamento pode acrescentar uma medida objetiva ao acompanhamento.
Mais uma vez, porém, detectar que um cão está se coçando mais não significa descobrir a causa. Alergias, parasitas, infecções e diversas outras condições podem produzir prurido, e o diagnóstico continua dependendo da avaliação veterinária.
Glicose em situações clínicas específicas
Os sensores contínuos de glicose também podem ser considerados uma forma de tecnologia vestível, embora sejam bastante diferentes de uma coleira inteligente.
Nesse caso, um pequeno sensor é aplicado de forma que consiga medir a glicose presente no líquido intersticial ao longo do tempo. O recurso já é utilizado na medicina veterinária para auxiliar no acompanhamento de alguns cães e gatos com diabetes.
As diretrizes de 2026 da American Animal Hospital Association para diabetes felino incluem o monitoramento contínuo de glicose entre as ferramentas disponíveis para avaliação de determinados pacientes. Ao mesmo tempo, a entidade ressalta que o sensor não precisa permanecer continuamente em todos os animais e deve ser utilizado quando houver indicação clínica (AAHA, 2026).
Portanto, trata-se de um exemplo mais especializado de wearable, geralmente utilizado dentro de um plano de acompanhamento veterinário.
O mais interessante pode não ser o número, mas a mudança no padrão
Uma das maiores possibilidades dos wearables está na criação de uma linha de base individual.
Imagine um cão que normalmente apresenta determinado padrão de atividade, repouso e frequência respiratória. Ao utilizar o equipamento durante meses, torna-se possível construir um histórico daquele próprio animal.
Uma redução persistente na movimentação, aumento do comportamento de coçar-se ou mudança no padrão respiratório pode então ser comparada não apenas com valores populacionais, mas também com aquilo que era habitual para aquele indivíduo.
É justamente essa capacidade de gerar dados longitudinais que diferencia um wearable de uma observação pontual. Estudos recentes estão criando grandes bases de dados justamente para compreender como idade, raça, peso, horário e outras características influenciam essas medições (Chetboul et al., 2025; Haghi et al., 2025).
Um wearable consegue detectar uma doença antes do responsável?
Em alguns casos, alterações nos dados podem aparecer antes que uma mudança seja claramente percebida pelo responsável, mas isso ainda não significa que o wearable consiga diagnosticar precocemente uma doença.
No pequeno estudo de cães com osteoartrite de Sacoor et al. (2025), houve um caso em que a redução de atividade apareceu antes da percepção dos sinais pelo responsável. Esse tipo de resultado demonstra o potencial da tecnologia, mas ainda é cedo para generalizar essa capacidade para diferentes doenças, animais e dispositivos.
O caminho mais plausível é o wearable funcionar como um sistema de alerta: identifica que algo mudou e fornece informação adicional para decidir se o animal precisa ser avaliado.
Nem todo wearable oferece a mesma precisão
É importante diferenciar um produto que mede determinado parâmetro de um produto cuja medição foi adequadamente validada para aquela espécie e finalidade.
Pelagem, tamanho corporal, conformação, posição da coleira, movimentação, contato do sensor com a pele e até características individuais podem interferir nos dados. Em alguns sensores, esses fatores já demonstraram influência significativa nos resultados (Warhoe et al., 2025; Zhao et al., 2025).
Os próprios algoritmos também representam uma diferença importante. Dois dispositivos podem utilizar acelerômetros semelhantes e, ainda assim, produzir classificações diferentes porque processam os sinais de maneiras distintas.
Por isso, antes de atribuir significado clínico a uma informação, é importante saber o que efetivamente está sendo medido, como o fabricante calcula aquele indicador e se existem estudos independentes de validação.
Conforto e adaptação do equipamento também importam
Um dispositivo utilizado diariamente precisa ser adequado ao tamanho, à anatomia e à rotina do animal. Peso, formato, ajuste e região de contato devem permitir movimentação normal e evitar pressão ou irritação.
Uma revisão publicada em 2026 sobre equipamentos utilizados no corpo de cães destaca que ainda existem lacunas importantes de evidência sobre os efeitos de coleiras, peitorais e outros acessórios e reforça a importância do uso cuidadoso considerando as estruturas anatômicas envolvidas (Ridgway, 2026).
Isso é especialmente relevante quando um sensor precisa permanecer no animal durante muitas horas por dia.
Como os wearables podem ajudar o médico-veterinário?
O potencial clínico aumenta quando os dados deixam de existir isoladamente em um aplicativo e passam a complementar o histórico do paciente.
Um médico-veterinário pode, por exemplo, utilizar informações longitudinais como apoio para acompanhar alterações de mobilidade, resposta a determinadas intervenções, frequência de determinados comportamentos ou mudanças de parâmetros fisiológicos.
Também existe potencial para integração desses dispositivos ao monitoramento remoto e à telemedicina veterinária, permitindo que informações produzidas no ambiente doméstico complementem avaliações realizadas em momentos específicos (Haghi et al., 2025; Zhao et al., 2025).
Entretanto, essa integração depende de validação dos equipamentos, qualidade dos dados, interoperabilidade entre sistemas e definição de como essas informações serão incorporadas à tomada de decisão clínica.
Inteligência artificial deve ampliar o potencial dos wearables
O próximo avanço provavelmente não estará apenas na criação de novos sensores, mas na capacidade de combinar diferentes tipos de dados.
Atividade, sono, frequência respiratória, frequência cardíaca e comportamento podem formar um histórico digital muito mais rico quando analisados conjuntamente. Algoritmos de inteligência artificial podem procurar padrões e desvios difíceis de perceber observando cada variável isoladamente.
Esse conceito está levando a pesquisas sobre saúde digital integrada e modelos de acompanhamento cada vez mais personalizados. Porém, a literatura atual ainda destaca limitações relacionadas à disponibilidade de dados, diferenças entre espécies e raças, validação dos sensores e desempenho dos algoritmos (Haghi et al., 2025; Zhao et al., 2025).
O objetivo, portanto, não deve ser transformar uma coleira em um “veterinário digital”, mas utilizar tecnologia para produzir informações adicionais e mais contínuas sobre o animal.
Wearables substituem o acompanhamento veterinário?
Não.
Wearables conseguem medir ou estimar determinados parâmetros, reconhecer padrões e mostrar tendências. Eles não conseguem, isoladamente, estabelecer a causa de uma alteração.
Um cão pode diminuir sua atividade por dor, temperatura ambiental, mudança de rotina, cansaço ou inúmeros outros motivos. Uma frequência cardíaca diferente do habitual também precisa ser interpretada dentro do contexto clínico.
Até mesmo equipamentos avaliados cientificamente podem apresentar resultados imprecisos em algumas situações. Em um estudo com cães hospitalizados, por exemplo, os pesquisadores consideraram útil o acompanhamento de tendências de frequência cardíaca e respiratória, mas recomendaram confirmar as medições antes de utilizá-las em decisões clínicas (Warhoe et al., 2025).
A tecnologia pode aumentar a quantidade de informações disponíveis. A interpretação continua sendo uma etapa importante do cuidado veterinário.
O futuro do cuidado pode ser cada vez mais contínuo
Durante muito tempo, grande parte das informações sobre a saúde de um animal esteve concentrada nos momentos em que ele entrava em uma clínica veterinária.
Wearables começam a preencher parte do intervalo existente entre essas avaliações.
Ao registrar atividade, descanso, comportamentos e determinados sinais fisiológicos no ambiente em que o animal realmente vive, esses dispositivos podem ajudar a construir uma visão mais longitudinal da saúde e do bem-estar.
Ainda existem limitações técnicas e científicas importantes, e nem todas as funções oferecidas comercialmente possuem o mesmo nível de validação. Mas o avanço já é suficiente para mostrar uma mudança relevante: a tecnologia veterinária está deixando de observar apenas momentos isolados para começar a acompanhar tendências ao longo do tempo.
Usados com responsabilidade e associados à avaliação profissional, wearables podem se tornar mais uma ferramenta para ajudar responsáveis e médicos-veterinários a conhecer melhor a rotina dos nossos heróis.
Autor: Renan Sparremberger
Referências
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