A tecnologia está mudando a maneira como nos relacionamos com praticamente todas as áreas da vida — e os cuidados com os animais de companhia também fazem parte dessa transformação. Ferramentas digitais que antes estavam restritas a grandes empresas ou centros de pesquisa hoje começam a fazer parte da rotina de responsáveis, médicos-veterinários e estabelecimentos veterinários.
Agendamentos online, prontuários eletrônicos, sistemas de identificação, aplicativos, dispositivos de monitoramento, telemedicina veterinária e inteligência artificial são alguns exemplos de tecnologias que vêm ampliando as possibilidades de organização, acompanhamento e acesso à informação no universo pet.
Mais do que simplesmente tornar determinadas tarefas digitais, essa transformação permite que informações sobre saúde, comportamento e rotina sejam registradas, organizadas e acompanhadas com maior continuidade. Estudos recentes apontam justamente para uma evolução do cuidado de animais de companhia em direção a modelos mais conectados, capazes de integrar diferentes fontes de informação e tecnologias de monitoramento (Arshad et al., 2025; Zhao et al., 2025).
Ao mesmo tempo, tecnologia não significa substituir o olhar do responsável, o contato com o animal ou a atuação do médico-veterinário. Seu maior potencial está em servir como ferramenta de apoio para tornar os cuidados mais organizados, acessíveis, informados e, progressivamente, personalizados.

Do cuidado pontual ao acompanhamento mais contínuo
Historicamente, muitas informações sobre a saúde e a rotina de um animal dependiam principalmente da memória e da observação do responsável. Quando algo diferente acontecia, era preciso perceber a mudança, lembrar quando ela havia começado e transmitir essas informações durante o atendimento veterinário.
A digitalização começa a modificar essa dinâmica.
Hoje, diferentes ferramentas permitem registrar peso, alimentação, medicamentos, vacinações, atendimentos, documentos e outros dados ao longo da vida do animal. Algumas tecnologias também possibilitam acompanhar determinados aspectos de atividade, repouso e comportamento.
Isso cria uma mudança importante: em vez de depender somente de informações pontuais, torna-se possível construir um histórico mais organizado ao longo do tempo.
Na Medicina Veterinária, pesquisas já investigam tecnologias capazes de realizar monitoramento remoto utilizando sensores vestíveis, câmeras, termografia, radar e outros métodos. Essas ferramentas ainda apresentam diferentes níveis de validação e aplicabilidade, mas demonstram como a coleta de dados pode se tornar progressivamente mais contínua e menos dependente de avaliações isoladas (Zhao et al., 2025).
Para o responsável, isso não significa interpretar sozinho todos esses dados ou utilizá-los para chegar a diagnósticos. Significa ter mais informações para observar mudanças e compartilhar dados relevantes com profissionais quando necessário.
A tecnologia pode facilitar a organização dos cuidados
Nem toda inovação precisa ser complexa.
Algumas das mudanças mais úteis no cotidiano acontecem por meio de recursos relativamente simples: agendas digitais, lembretes, históricos organizados, documentos eletrônicos, identificação animal e acesso centralizado às informações.
Quando esses recursos são bem estruturados, o responsável pode encontrar com maior facilidade informações sobre seu animal, enquanto profissionais conseguem manter registros mais organizados e acompanhar melhor o histórico dos atendimentos.
Essa transformação também está acontecendo no âmbito público. No Brasil, por exemplo, o SinPatinhas — Sistema do Cadastro Nacional de Animais Domésticos criou uma estrutura digital nacional para o registro de cães e gatos. O sistema permite cadastrar o animal e gerar uma identificação digital com QR Code, além de integrar informações utilizadas em políticas públicas relacionadas ao bem-estar animal (Brasil, 2025).
É um exemplo de como a tecnologia pode contribuir não apenas para a rotina individual de cada responsável, mas também para formas mais amplas de identificação, organização e gestão de informações relacionadas aos animais.
Responsáveis e médicos-veterinários estão cada vez mais conectados
Outro impacto da tecnologia é a redução de determinadas barreiras entre responsáveis e profissionais.
Agendamentos podem ser realizados online, documentos podem ser disponibilizados digitalmente, informações podem ser organizadas antes de um atendimento e determinadas modalidades de assistência podem ocorrer a distância quando tecnicamente e legalmente apropriadas.
No Brasil, a própria telemedicina veterinária já possui regulamentação específica por meio da Resolução CFMV nº 1.465/2022, demonstrando como as tecnologias de informação e comunicação passaram a integrar formalmente determinadas modalidades da Medicina Veterinária. A regulamentação estabelece diferentes modalidades e também define limites para seu uso, reforçando que a tecnologia deve estar inserida dentro de critérios técnicos, éticos e profissionais (CFMV, 2022).
Esse movimento não elimina a importância do atendimento presencial. Pelo contrário: cria novas possibilidades de conexão que podem complementar os cuidados tradicionais, dependendo da situação.
A tendência é que o relacionamento entre responsáveis e profissionais se torne cada vez menos limitado ao momento de uma consulta isolada e passe a incluir diferentes ferramentas digitais de organização, acompanhamento e comunicação.
Mais dados podem ajudar a perceber mudanças ao longo do tempo
Uma das principais contribuições da tecnologia está na capacidade de registrar informações continuamente.
Imagine, por exemplo, que um cão normalmente apresenta determinado padrão de atividade ao longo da semana. Uma pequena alteração em um único dia pode não representar algo relevante. Mas uma mudança persistente durante vários dias pode chamar a atenção do responsável.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado a diferentes tipos de informações: peso corporal, consumo alimentar, padrões de atividade, repouso e outros aspectos da rotina.
Pesquisas sobre tecnologias de monitoramento veterinário apontam justamente para a possibilidade de utilizar dados coletados ao longo do tempo como informações adicionais para acompanhamento da saúde e do bem-estar dos animais, embora existam desafios importantes relacionados à precisão, validação, diferenças entre espécies e condições de utilização (Zhao et al., 2025).
O valor da tecnologia, portanto, não está simplesmente em produzir mais números.
Está em transformar dados confiáveis em informações que possam ajudar responsáveis e profissionais a compreender melhor o que está acontecendo com cada animal.
A tecnologia também pode contribuir para cuidados mais personalizados
Cada animal possui características próprias.
Idade, espécie, raça, condição de saúde, ambiente, rotina, nível de atividade e histórico podem influenciar suas necessidades. Quanto mais informações confiáveis estiverem disponíveis, maior pode ser a possibilidade de contextualizar os cuidados.
Esse é um dos motivos pelos quais tecnologias de monitoramento e análise de dados despertam tanto interesse na área veterinária.
Ferramentas de inteligência artificial, por exemplo, vêm sendo pesquisadas para diferentes aplicações envolvendo animais de companhia. Uma revisão sistemática publicada em 2026 encontrou potencial para aplicações relacionadas à saúde, comportamento e bem-estar, mas também destacou que ainda existe uma distância importante entre a capacidade tecnológica e a utilização ampla e validada dessas ferramentas na rotina (Sabolek e Jović, 2026).
Isso demonstra um princípio que provavelmente acompanhará boa parte da evolução da tecnologia pet: inovação precisa caminhar junto com evidência científica e validação.
Uma tecnologia ser capaz de gerar uma informação não significa automaticamente que essa informação seja clinicamente relevante ou que possa ser interpretada isoladamente.
Tecnologia pode contribuir para a prevenção?
A prevenção continua dependendo de diversos fatores, incluindo acompanhamento médico-veterinário, vacinação, controle de parasitas, alimentação adequada, atividade física, ambiente seguro e observação das condições do animal.
A tecnologia pode atuar como uma ferramenta complementar dentro desse conjunto.
Lembretes podem ajudar responsáveis a manter determinados cuidados em dia. Registros digitais podem facilitar o acompanhamento do histórico. Sistemas de monitoramento podem tornar mudanças de rotina mais perceptíveis. Plataformas podem facilitar o acesso a profissionais e informações confiáveis.
Por isso, o papel da tecnologia na prevenção não deve ser entendido como uma capacidade de prever ou diagnosticar doenças de forma automática.
Seu benefício está, principalmente, em facilitar organização, acompanhamento e identificação de informações que poderiam passar despercebidas.
Mais tecnologia também exige mais responsabilidade
À medida que informações sobre animais e responsáveis passam a circular por plataformas digitais, surgem também novas responsabilidades.
Dados cadastrais, documentos, históricos de atendimento e informações relacionadas à saúde precisam ser armazenados e tratados de maneira adequada.
Além da proteção dos dados, existe outro desafio: a própria qualidade das tecnologias utilizadas.
No universo pet, assim como em outras áreas, é importante diferenciar uma tecnologia cientificamente validada de um produto que apenas utiliza expressões como “inteligente”, “IA” ou “monitoramento de saúde” em sua divulgação.
A literatura científica atual sobre inteligência artificial e monitoramento de animais de companhia reconhece um potencial significativo dessas tecnologias, mas também aponta limitações relacionadas à validação, qualidade dos dados, diferenças entre animais e capacidade de generalização dos sistemas (Arshad et al., 2025; Sabolek e Jović, 2026; Zhao et al., 2025).
Por isso, quanto mais avançada for a tecnologia, mais importante se torna compreender exatamente o que ela mede, quais são suas limitações e para qual finalidade foi desenvolvida.
Tecnologia não substitui cuidado
Uma casa pode ter câmera, sensores e dispositivos conectados. Um responsável pode utilizar aplicativos para organizar toda a rotina. Uma plataforma pode armazenar diferentes informações sobre o animal.
Mesmo assim, nenhuma dessas ferramentas substitui necessidades básicas como interação, atenção, atividade física adequada, ambiente compatível com a espécie e acompanhamento veterinário quando necessário.
Da mesma forma, algoritmos e ferramentas digitais não devem substituir indiscriminadamente o julgamento profissional.
Na área veterinária, a tendência observada na literatura é muito mais de complementaridade entre tecnologia e atuação humana do que de substituição. Sistemas podem coletar dados, reconhecer determinados padrões e organizar informações, enquanto a interpretação precisa considerar contexto, limitações da ferramenta e conhecimento profissional (Arshad et al., 2025; Sabolek e Jović, 2026).
A tecnologia é mais útil quando consegue tornar o cuidado humano melhor informado — e não quando tenta ocupar seu lugar.
O futuro dos cuidados com os pets será mais conectado
É provável que diferentes tecnologias hoje utilizadas separadamente se tornem cada vez mais integradas.
Informações de identificação, histórico, rotina, acompanhamento profissional e diferentes fontes de dados poderão conversar entre si de maneira mais eficiente. Pesquisas atuais já discutem a integração de sensores, inteligência artificial e diferentes sistemas digitais como parte da evolução do acompanhamento de animais de companhia (Arshad et al., 2025; Zhao et al., 2025).
Isso pode permitir que responsáveis tenham uma visão mais organizada da vida de seus animais e que profissionais recebam informações mais estruturadas para auxiliar sua atuação.
Mas o avanço tecnológico também deverá trazer novas discussões sobre privacidade, confiabilidade dos dados, regulamentação, responsabilidade profissional e limites de utilização.
Por isso, o futuro dos cuidados com os pets não depende apenas de desenvolver mais tecnologia.
Depende de desenvolver tecnologia que realmente tenha utilidade para os animais e para as pessoas que cuidam deles.
Tecnologia e bem-estar animal devem caminhar juntos
A transformação tecnológica do universo pet já está acontecendo.
Do simples armazenamento digital de informações às tecnologias mais avançadas de monitoramento e inteligência artificial, diferentes ferramentas começam a modificar a maneira como responsáveis e profissionais organizam, acompanham e compreendem os cuidados com os animais.
Quando utilizadas de maneira responsável, essas tecnologias podem contribuir para mais organização, acesso à informação, acompanhamento e conexão entre responsáveis e profissionais.
Ao mesmo tempo, inovação precisa continuar acompanhada por conhecimento científico, critérios técnicos e respeito às necessidades dos animais.
💛 Tecnologia e bem-estar animal não precisam seguir caminhos separados. Quando desenvolvidas e utilizadas com responsabilidade, novas soluções podem contribuir para uma relação cada vez mais consciente e conectada com nossos heróis.
Perguntas frequentes
Como a tecnologia pode ajudar nos cuidados com os pets?
A tecnologia pode ajudar a organizar informações, acompanhar determinados aspectos da rotina, facilitar agendamentos e comunicação, manter históricos digitais e oferecer novas ferramentas de apoio aos responsáveis e profissionais. Seu papel deve ser complementar aos cuidados e à avaliação médico-veterinária quando necessária.
A tecnologia consegue identificar problemas de saúde antes do responsável?
Algumas tecnologias conseguem monitorar parâmetros e identificar mudanças em determinados padrões, mas isso não significa que possam diagnosticar doenças automaticamente. A confiabilidade depende do dispositivo, do parâmetro analisado e de sua validação. Alterações relevantes precisam ser contextualizadas e, quando necessário, avaliadas pelo médico-veterinário.
A tecnologia pode substituir o médico-veterinário?
Não. As tecnologias atuais podem auxiliar na coleta e organização de informações e apoiar determinadas atividades profissionais, mas não substituem de forma geral a avaliação clínica, o julgamento e a responsabilidade do médico-veterinário.
Autor: Renan Sparremberger
Referências
ARSHAD, M. F.; AHMED, F.; NONNIS, F.; TAMPONI, C.; SCALA, A.; VARCASIA, A. Artificial intelligence and companion animals: Perspectives on digital healthcare for dogs, cats, and pet ownership. Research in Veterinary Science, v. 193, 105776, 2025. DOI: 10.1016/j.rvsc.2025.105776.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. SinPatinhas — Sistema do Cadastro Nacional de Animais Domésticos. Brasília: MMA.
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA VETERINÁRIA (CFMV). Resolução nº 1.465, de 27 de junho de 2022. Regulamenta o uso da Telemedicina Veterinária na prestação de serviços médico-veterinários. Brasília: CFMV, 2022.
SABOLEK, I.; JOVIĆ, A. The Expanding Role of Artificial Intelligence in Companion Animal Care: A Systematic Review. Animals, v. 16, n. 7, 1035, 2026. DOI: 10.3390/ani16071035.
ZHAO, X.; TANAKA, R.; MANDOUR, A. S.; SHIMADA, K.; HAMABE, L. Remote Vital Sensing in Clinical Veterinary Medicine: A Comprehensive Review of Recent Advances, Accomplishments, Challenges, and Future Perspectives. Animals, v. 15, n. 7, 1033, 2025. DOI: 10.3390/ani15071033.
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