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Pequeno, permanente e praticamente invisível depois de implantado, o microchip é uma das tecnologias mais utilizadas para a identificação individual de cães e gatos. Ao contrário de uma coleira ou plaquinha, ele permanece no corpo do animal e pode ser lido por um equipamento específico, permitindo associar aquele cão ou gato a um número único de identificação.

Mas o microchip não é um GPS e não permite acompanhar a localização do pet em tempo real. Sua função é outra: fornecer uma identificação eletrônica permanente que, quando corretamente cadastrada e vinculada aos dados do responsável, pode facilitar a identificação do animal em clínicas veterinárias, hospitais, abrigos e outros locais que disponham de um leitor compatível.

A tecnologia utiliza identificação por radiofrequência, conhecida como RFID, e é padronizada internacionalmente por normas como a ISO 11784 e a ISO 11785, atualizadas respectivamente em 2024 e 2026 (ISO, 2024; ISO, 2026).

 

veterinário michochipando filhote fofo na clínica

 

O que é o microchip utilizado em cães e gatos?

O microchip veterinário é um pequeno transponder eletrônico implantável. Os modelos destinados a animais de companhia costumam medir apenas alguns milímetros e ficam encapsulados em material apropriado para permanecer no organismo.

O dispositivo contém um código de identificação individual. Nos sistemas padronizados pela ISO, a estrutura desse código permite que o número seja reconhecido por leitores compatíveis e utilizado para vincular o animal às informações existentes em um banco de dados (ISO, 2024; ISO, 2026).

Em outras palavras, o microchip funciona como uma espécie de identidade eletrônica permanente do animal. Ele não precisa ser recarregado e, nos modelos passivos utilizados para identificação animal, não possui bateria própria: recebe energia momentaneamente do campo gerado pelo leitor quando é escaneado. O leitor então recebe as informações de identificação transmitidas pelo dispositivo.

O microchip guarda nome, endereço e telefone do responsável?

Em geral, não. Essa é uma diferença importante.

O microchip propriamente dito contém essencialmente o código eletrônico de identificação. Os dados do animal e do responsável ficam vinculados a esse número em um sistema ou banco de dados.

Por isso, implantar o microchip sem realizar o cadastro adequado reduz bastante sua utilidade. Um estudo envolvendo 7.704 animais microchipados que chegaram a abrigos mostrou que problemas de registro, telefones incorretos e informações desatualizadas estavam entre os principais obstáculos para localizar os responsáveis (Lord et al., 2009).

 

Como funciona a leitura do microchip?

Para identificar o animal, aproxima-se um leitor de microchips da região onde o dispositivo está implantado. O equipamento emite um campo de radiofrequência capaz de ativar temporariamente o transponder, que responde transmitindo seu código.

A padronização internacional é particularmente importante porque permite melhorar a compatibilidade entre microchips e leitores. As normas ISO 11784 e ISO 11785 estabelecem, respectivamente, aspectos da estrutura do código e da comunicação entre o transponder e o equipamento leitor (ISO, 2024; ISO, 2026).

Ainda assim, nenhum sistema deve ser considerado infalível. Diferentes tecnologias de microchips existem no mercado e nem todo leitor consegue detectar todos os dispositivos. A American Animal Hospital Association recomenda o uso de microchips compatíveis com os padrões ISO e de leitores adequados, além da verificação periódica do funcionamento do dispositivo (AAHA, 2015).

 

Microchip tem GPS?

Não. Microchip e rastreador GPS são tecnologias diferentes.

O microchip não informa onde o cão ou gato está, não transmite continuamente sua posição e não permite acompanhar seus deslocamentos por um aplicativo.

Para que seu número seja identificado, alguém precisa encontrar o animal e aproximar um leitor compatível do corpo.

Um rastreador GPS, por outro lado, utiliza tecnologias de localização e normalmente depende de bateria, sendo geralmente instalado em coleiras ou outros dispositivos externos.

Assim, a principal função do microchip é identificação, e não rastreamento.

 

Como o microchip é colocado no cão ou gato?

A implantação é realizada por meio de um aplicador próprio, semelhante ao princípio de uma injeção, embora a agulha utilizada precise comportar o transponder.

O microchip é depositado sob a pele. Segundo as diretrizes da World Small Animal Veterinary Association, em cães e gatos há diferenças regionais quanto ao ponto padronizado de implantação. Fora da Europa continental, o local recomendado é a região dorsal, na linha média, imediatamente à frente das escápulas; na Europa continental, utiliza-se tradicionalmente a região média do lado esquerdo do pescoço (WSAVA, Microchip Identification Guidelines).

A WSAVA também recomenda técnica asséptica e ressalta que cabe ao médico-veterinário avaliar a necessidade de anestesia local de acordo com o animal e com o procedimento.

Depois da implantação, é importante realizar uma nova leitura para confirmar que o dispositivo está funcionando e pode ser detectado corretamente.

 

A implantação do microchip dói?

A introdução do microchip pode causar desconforto breve, assim como outros procedimentos realizados com agulhas. Como o aplicador é maior do que o utilizado em algumas injeções rotineiras, a percepção varia conforme o porte, a sensibilidade e o comportamento do animal.

Na maioria das situações, trata-se de um procedimento rápido. A decisão sobre contenção, necessidade de analgesia ou anestesia local deve ser feita pelo médico-veterinário individualmente.

Também não existe uma única idade universal para todos os cães e gatos receberem um microchip. O momento pode variar conforme a condição clínica, o objetivo da identificação, as características do animal e eventuais exigências sanitárias ou legais.

 

O microchip é seguro?

De forma geral, a microchipagem é considerada uma tecnologia segura para identificação permanente de animais.

Como qualquer procedimento que envolve a introdução de um dispositivo sob a pele, entretanto, não é totalmente isenta de possíveis intercorrências. Podem ocorrer alterações locais relacionadas à implantação e, em alguns animais, o dispositivo pode ser encontrado posteriormente em posição diferente da inicialmente esperada.

A migração do microchip é reconhecida como um possível evento adverso, motivo pelo qual uma leitura adequada deve abranger uma área maior do corpo quando o dispositivo não é identificado imediatamente no local habitual (WSAVA; BSAVA).

Relatos de tumores na região de implantação existem na literatura e em sistemas de vigilância, mas são extremamente raros, e a existência de um tumor próximo ao microchip não demonstra necessariamente que o dispositivo tenha sido sua causa. A avaliação da WSAVA considera que os benefícios da identificação por microchip superam amplamente os possíveis riscos conhecidos (WSAVA, Microchip Safety and Efficacy).

 

Por que o cadastro do microchip é tão importante?

O número eletrônico sozinho não consegue telefonar para ninguém.

Para que a tecnologia cumpra sua principal função, o código precisa estar associado a informações que permitam identificar o animal e localizar seu responsável.

Isso significa que, depois da implantação, é importante verificar:

Se o microchip foi efetivamente cadastrado

O responsável deve saber em qual banco de dados o número está registrado e, quando aplicável, como consultar e atualizar essas informações.

Se os dados de contato estão corretos

Mudança de telefone, e-mail ou endereço deve ser atualizada no sistema correspondente.

Se uma transferência de responsabilidade foi registrada

Quando um animal é adotado, doado ou passa para outro responsável, os dados vinculados à identificação também precisam acompanhar essa mudança.

A relevância disso já foi demonstrada em pesquisas. Em um estudo com cães e gatos perdidos encaminhados a abrigos, a identificação por microchip mostrou grande utilidade na localização dos responsáveis, mas cadastros incompletos ou desatualizados diminuíram substancialmente a efetividade do sistema (Lord et al., 2009).

Outro estudo encontrou problemas nos dados de 37% dos animais microchipados avaliados, incluindo registros associados a antigos responsáveis, telefones incorretos e microchips sem registro. Quando os dados estavam corretos, a possibilidade de contato com os responsáveis era consideravelmente maior (Lancaster et al., 2015).

 

O microchip pode ajudar se o animal se perder?

Sim, desde que o animal seja encontrado, escaneado e seu número esteja corretamente cadastrado.

Quando um cão ou gato perdido chega a uma clínica veterinária, hospital, abrigo ou serviço de proteção animal que possui leitor, o profissional pode procurar por um microchip. A partir do código identificado, pode ser possível consultar o sistema correspondente e localizar as informações necessárias para tentar encontrar o responsável.

Um estudo realizado em abrigos encontrou os responsáveis de 74,1% dos cães e 63,5% dos gatos errantes microchipados nos casos em que os abrigos relataram a localização do responsável, reforçando o valor da identificação eletrônica — mas também mostrando como problemas cadastrais podem comprometer o processo (Lord et al., 2009).

Isso não significa que o microchip deva ser a única forma de identificação.

A AAHA recomenda que cães e gatos também utilizem identificação externa com informações atualizadas, pois uma plaquinha pode permitir contato imediato mesmo por alguém que não tenha acesso a um leitor de microchip (AAHA, 2015).

 

Existe cadastro nacional de cães e gatos no Brasil?

Sim. O Brasil conta atualmente com o SinPatinhas — Sistema do Cadastro Nacional de Animais Domésticos, instituído no âmbito federal e disponibilizado gratuitamente.

O sistema permite o cadastro de cães e gatos e de seus responsáveis, além do registro de informações como espécie, raça, idade, vacinação e microchipagem. Após o cadastro, também é possível emitir uma Carteirinha/RG Animal com QR Code (MMA, 2025).

O serviço federal informa que o cadastro é voluntário e gratuito. O responsável pode cadastrar seu animal, enquanto determinadas informações relacionadas a procedimentos — entre elas a microchipagem — são registradas no sistema por médicos-veterinários.

A existência do SinPatinhas é um avanço para a identificação animal no Brasil, mas o responsável também deve verificar em qual base de dados o microchip específico implantado foi registrado e manter essas informações atualizadas.

 

Todo cão ou gato é obrigado a ter microchip no Brasil?

Não existe, atualmente, uma regra federal geral determinando que todo cão e gato de companhia do país obrigatoriamente seja microchipado.

O Decreto nº 12.439/2025 prevê o número do microchip no Cadastro Nacional de Animais Domésticos “quando houver”, e o próprio serviço SinPatinhas informa que o cadastro é voluntário. Estados e municípios, entretanto, podem estabelecer regras próprias para determinadas situações ou programas.

Além disso, a microchipagem pode ser exigida em contextos específicos.

 

É necessário microchip para viajar com cães e gatos?

Depende do destino e da documentação utilizada.

Para a emissão do Passaporte para Trânsito de Cães e Gatos pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, a identificação eletrônica é obrigatória. O MAPA informa que o dispositivo deve atender aos critérios de conformidade das normas ISO aplicáveis; caso não seja compatível, o responsável pode precisar fornecer o equipamento capaz de realizar sua leitura (MAPA).

Em viagens internacionais, cada país pode estabelecer requisitos próprios relacionados à identificação, vacinação, sorologia, certificados sanitários e momento da implantação do microchip. Portanto, o planejamento deve ser realizado com antecedência e de acordo com as exigências oficiais do país de destino.

 

O microchip precisa ser verificado ao longo da vida?

Embora seja projetado para identificação permanente, é recomendável verificar periodicamente se o microchip continua sendo corretamente detectado.

A AAHA recomenda que animais microchipados sejam escaneados nas avaliações veterinárias periódicas para confirmar o funcionamento e a localização do dispositivo e reforça a necessidade de manter os dados cadastrais atualizados (AAHA, 2015).

Esse cuidado pode ser particularmente importante depois de mudanças de endereço, telefone ou responsável.

 

Microchip substitui plaquinha de identificação?

Não. As duas formas de identificação são complementares.

A plaquinha permite que uma pessoa que encontrou o animal identifique rapidamente um telefone de contato, sem nenhum equipamento. Porém, pode quebrar, se soltar ou ser retirada.

O microchip permanece implantado e oferece uma forma permanente de identificação, mas exige um leitor para ser detectado.

Por isso, a combinação entre microchip devidamente cadastrado e identificação externa atualizada oferece uma estratégia mais completa para aumentar as possibilidades de identificação de um cão ou gato perdido (AAHA, 2015).

 

Tecnologia que funciona melhor quando informação e cuidado caminham juntos

O microchip é uma ferramenta relativamente simples, mas sua eficiência depende de um sistema maior: implantação correta, equipamento compatível para leitura, cadastro adequado e informações atualizadas.

Ele não rastreia o pet e não substitui os cuidados necessários para evitar fugas, mas oferece uma identificação permanente que pode fazer grande diferença quando um animal perdido é encontrado.

Com padrões internacionais mais recentes para identificação por radiofrequência e, no Brasil, a criação de uma base nacional como o SinPatinhas, a tendência é que a identificação eletrônica se torne cada vez mais integrada à medicina veterinária, à proteção animal e às políticas de guarda responsável.

Em caso de dúvida sobre a implantação, leitura ou registro do microchip, converse com um médico-veterinário para avaliar a melhor conduta para o seu cão ou gato.

 

Referências

AAHA — American Animal Hospital Association. Animal Identification and Microchipping. American Animal Hospital Association. Revisado em 2015.

BSAVA — British Small Animal Veterinary Association. Microchipping Adverse Reactions. British Small Animal Veterinary Association.

ISO — International Organization for Standardization. ISO 11784:2024 — Radio frequency identification of animals — Code structure. 3. ed. Geneva: International Organization for Standardization, 2024.

ISO — International Organization for Standardization. ISO 11785:2026 — Radio frequency identification of animals — Technical concept. 2. ed. Geneva: International Organization for Standardization, 2026.

LANCASTER, E.; RAND, J.; COLLETT, M.; PATERSON, M. Problems Associated with the Microchip Data of Stray Dogs and Cats Entering RSPCA Queensland Shelters. Animals, v. 5, n. 2, 2015.

LORD, L. K.; INGWERSEN, W.; GRAY, J. L.; WINTZ, D. J. Characterization of Animals with Microchips Entering Animal Shelters. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 235, n. 2, p. 160–167, 2009. DOI: 10.2460/javma.235.2.160.

MAPA — Ministério da Agricultura e Pecuária. Perguntas e Respostas frequentes sobre Viagens Internacionais com Cães e Gatos. Governo Federal, Brasil.

MMA — Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. SinPatinhas — Sistema do Cadastro Nacional de Animais Domésticos. Governo Federal, Brasil.

WSAVA — World Small Animal Veterinary Association. Microchip Identification Guidelines. World Small Animal Veterinary Association.

WSAVA — World Small Animal Veterinary Association. Microchip Safety and Efficacy. World Small Animal Veterinary Association.

 

Renan Sparremberger

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