A tecnologia já faz parte de praticamente todos os aspectos da rotina e também começa a ocupar um espaço cada vez maior nos cuidados com os animais. Aplicativos para pets podem ajudar responsáveis a organizar informações, lembrar medicamentos, acompanhar atividades, registrar mudanças no comportamento e até facilitar o acesso a serviços veterinários.
Mas é importante entender o papel dessas ferramentas. Um aplicativo pode ajudar na organização e no acompanhamento da rotina, mas não substitui a avaliação clínica, o diagnóstico ou a orientação individualizada de um médico-veterinário.
Pesquisas recentes mostram que celulares, aplicativos e outras tecnologias digitais vêm ganhando espaço na busca por informações e no cuidado animal. Em um estudo realizado com responsáveis por cães e gatos no Rio de Janeiro, por exemplo, o celular foi o principal meio de acesso à internet, e os autores destacaram o potencial das ferramentas digitais para apoiar educação em saúde e cuidados responsáveis, preservando o papel do médico-veterinário no diagnóstico e tratamento (de Castro et al., 2026).

Como os aplicativos podem ajudar nos cuidados com o pet?
O benefício depende muito da função da ferramenta e da forma como ela é utilizada. Em geral, aplicativos voltados à rotina animal podem funcionar como uma espécie de apoio para armazenar informações, criar lembretes e acompanhar dados ao longo do tempo.
Lembretes de medicamentos e tratamentos
Administrar medicamentos nos horários corretos pode se tornar mais difícil quando o tratamento envolve diferentes produtos, frequências ou períodos prolongados.
Aplicativos com alarmes e registros de administração podem ajudar o responsável a acompanhar melhor essa rotina.
Um estudo com cães em tratamento para dermatite atópica avaliou o uso de uma ferramenta móvel para registrar e lembrar a administração de medicamentos. Os autores observaram que esse tipo de tecnologia pode contribuir para o acompanhamento da adesão ao tratamento, embora tenham destacado que ainda são necessários estudos maiores para determinar seu impacto de forma mais ampla (Ribas et al., 2020).
O aplicativo, portanto, pode ajudar a lembrar quando um medicamento deve ser administrado, mas não deve ser utilizado para modificar doses, suspender tratamentos ou decidir quais medicamentos oferecer ao animal.
Essas decisões devem seguir a orientação do médico-veterinário responsável pelo paciente.
Organização de vacinas, consultas e cuidados preventivos
Outra utilidade é concentrar informações importantes em um único local.
Datas de vacinação, consultas, controle de peso, uso de antiparasitários, exames realizados e outras informações podem ser registradas para facilitar o acompanhamento ao longo do tempo.
Essa organização pode ser particularmente útil quando há mais de um animal na família ou quando diferentes pessoas participam dos cuidados.
Mesmo assim, um lembrete digital não determina sozinho quando determinado procedimento é necessário. Protocolos de vacinação, acompanhamento preventivo e frequência de avaliações dependem de fatores como espécie, idade, estilo de vida, localização, histórico clínico e avaliação veterinária.
Registro de sintomas e mudanças na rotina
Alguns aplicativos permitem que o responsável registre informações como apetite, consumo de água, episódios de vômito, evacuações, coceira, comportamento, sono ou nível de atividade.
Quando esses registros são feitos de maneira consistente, podem ajudar o responsável a perceber alterações que talvez passassem despercebidas na rotina.
Também podem fornecer informações úteis durante uma consulta veterinária.
Por exemplo, dizer que “o cão está bebendo mais água” é uma informação importante, mas registrar aproximadamente quando essa mudança começou e como evoluiu pode ajudar o médico-veterinário a compreender melhor o histórico.
O registro digital, contudo, deve ser encarado como informação complementar. A interpretação clínica desses dados depende do contexto do paciente.
Aplicativos e dispositivos podem monitorar a atividade do animal?
Sim. Além dos aplicativos utilizados diretamente pelo responsável, há dispositivos vestíveis, sensores e outras tecnologias capazes de registrar dados relacionados à atividade e, dependendo do equipamento, outras variáveis fisiológicas.
Wearables veterinários vêm sendo estudados como ferramentas para monitoramento remoto e acompanhamento de pacientes. Esses dispositivos podem fornecer dados sobre atividade, movimento e outras variáveis que, quando adequadamente interpretadas, podem complementar a avaliação veterinária (Mitek et al., 2022).
Tecnologias mais recentes também estão sendo estudadas para monitoramento de sinais fisiológicos por meio de sensores, câmeras, dispositivos vestíveis e sistemas de análise computacional (Zhao et al., 2025).
Isso não significa que uma alteração detectada por um relógio, coleira inteligente ou aplicativo represente automaticamente uma doença.
Uma redução na atividade pode ocorrer por diferentes motivos, como mudança de rotina, temperatura ambiental, idade, dor, alterações comportamentais ou doenças. O dado pode indicar que algo merece atenção, mas sua interpretação depende da avaliação clínica.
Inteligência artificial também está chegando aos cuidados com pets
A inteligência artificial já começa a ser utilizada em diferentes áreas relacionadas aos animais de companhia, incluindo análise de comportamento, monitoramento de saúde, alimentação e interpretação de dados coletados por dispositivos.
Uma revisão publicada em 2025 descreveu aplicações de inteligência artificial em áreas como monitoramento de saúde e comportamento, sistemas de alimentação, identificação de parasitas e suporte ao cuidado veterinário (Arshad et al., 2025).
Essas tecnologias podem aumentar a capacidade de organizar e analisar grandes quantidades de informações, mas não devem ser confundidas com uma avaliação veterinária completa.
Um algoritmo pode identificar padrões. O médico-veterinário reúne esses dados com histórico, exame físico, exames complementares e conhecimento clínico para determinar o que eles significam para aquele paciente.
Informação disponível no celular também exige cuidado
A facilidade de acesso à informação é uma das grandes vantagens da tecnologia, mas também cria um desafio: nem toda informação encontrada online possui a mesma qualidade.
Estudos mostram que responsáveis recorrem frequentemente à internet para buscar informações relacionadas à saúde dos animais. Ao mesmo tempo, médicos-veterinários continuam sendo considerados fontes de alta confiança para orientação em saúde animal (Kogan et al., 2018).
Mais recentemente, pesquisas sobre consumo de informações de saúde animal em ambientes digitais reforçaram a importância da qualidade da informação e da capacidade do responsável de avaliar aquilo que encontra online (Wang et al., 2026).
Por isso, sintomas pesquisados em aplicativos, redes sociais ou mecanismos de busca não devem ser utilizados isoladamente para definir diagnósticos ou tratamentos.
Um mesmo sinal clínico pode ocorrer em diversas doenças diferentes.
E a segurança dos dados?
Esse é outro ponto importante.
Aplicativos para pets podem armazenar dados como nome e localização do responsável, localização do animal, histórico de saúde, fotografias e informações da rotina familiar.
Uma pesquisa que avaliou aplicativos e tecnologias voltadas a animais identificou falhas de segurança e práticas de privacidade inadequadas em parte das ferramentas analisadas, mostrando que esse aspecto também merece atenção (Harper et al., 2023).
Antes de utilizar uma ferramenta, é importante verificar quais dados ela solicita, quais permissões exige e como as informações são armazenadas e utilizadas.
Também vale desconfiar de aplicativos que pedem acesso a recursos do celular que aparentemente não têm relação com sua função.
Como escolher um aplicativo para ajudar na rotina do pet?
Não existe um único aplicativo indicado para todos os responsáveis e animais.
A escolha depende da necessidade.
Para algumas pessoas, um aplicativo simples de lembretes pode ser suficiente. Para outras, pode ser útil registrar peso, medicamentos, exames ou atividade física.
Na hora de escolher uma ferramenta, alguns critérios podem ajudar:
- verificar se o aplicativo possui uma função clara e realmente útil para a rotina;
- avaliar quem desenvolveu o conteúdo e se há participação de profissionais qualificados;
- observar como o aplicativo trata informações de saúde;
- verificar as políticas de privacidade e as permissões solicitadas;
- manter o aplicativo atualizado;
- evitar ferramentas que prometam diagnóstico definitivo a partir de informações limitadas;
- confirmar com o médico-veterinário qualquer orientação relacionada a tratamentos ou mudanças importantes na rotina.
Uma revisão sobre aplicativos móveis voltados a responsáveis por animais também destacou a importância de deixar claras as limitações dessas ferramentas, especialmente quando elas tentam auxiliar na decisão sobre a necessidade de atendimento veterinário.
Aplicativos substituem o médico-veterinário?
Não.
Essa talvez seja a distinção mais importante.
Aplicativos podem ajudar a lembrar, registrar, organizar e monitorar informações.
O médico-veterinário avalia o animal, interpreta sinais clínicos, considera o histórico, realiza o exame físico quando necessário, solicita exames complementares e define condutas de acordo com cada paciente.
A tecnologia funciona melhor quando complementa essa relação, e não quando tenta substituí-la.
Tecnologia e cuidado podem caminhar juntos
Os aplicativos fazem parte de uma transformação maior na medicina veterinária e na forma como responsáveis acompanham a saúde dos animais.
Lembretes, históricos digitais, sensores, wearables e sistemas baseados em inteligência artificial podem tornar informações mais acessíveis e ajudar na organização da rotina.
O verdadeiro valor dessas ferramentas, porém, está em utilizá-las como apoio ao cuidado.
Quando tecnologia, observação do responsável e acompanhamento veterinário trabalham juntos, é possível construir uma rotina mais organizada e produzir informações que podem contribuir para decisões mais bem fundamentadas sobre a saúde e o bem-estar do animal.
Na Heroz, acreditamos que a tecnologia pode aproximar responsáveis e médicos-veterinários, facilitar o acesso aos serviços e contribuir para uma experiência de cuidado mais conectada, sem perder aquilo que permanece no centro da medicina veterinária: a avaliação técnica e individual de cada paciente.
Renan Sparremberger
Referências
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de Castro JL, Oliveira LFA, Cohen MM, da Silva VF, Fernandes Pimentel MI, Monteiro DR, et al. Digital engagement and knowledge about zoonoses among dog and cat owners in Rio de Janeiro: a cross-sectional study. Frontiers in Digital Health. 2026;8. DOI: 10.3389/fdgth.2026.1746563.
Harper S, Mehrnezhad M, Leach M. Security and privacy of pet technologies: actual risks vs user perception. Frontiers in the Internet of Things. 2023;2. DOI: 10.3389/friot.2023.1281464.
Kogan LR, Oxley JA, Hellyer P, Schoenfeld R, Rishniw M. UK pet owners' use of the internet for online pet health information. Veterinary Record. 2018;182(21):601. DOI: 10.1136/vr.104716.
Mitek A, Jones D, Newell A, Vitale S. Wearable Devices in Veterinary Health Care. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice. 2022;52(5):1087–1098. DOI: 10.1016/j.cvsm.2022.05.001.
Ribas M, Lourenço AM, Cavaco A. Exploring Medication Adherence Using M-Health: A Study from Veterinary Medicine. Pharmacy. 2020;8(1):38. DOI: 10.3390/pharmacy8010038.
Wang Z, Ren X, Shu Y. Study on the usage behavior of incidentally encountered pet health information among pet owners in the mobile media environment. Frontiers in Veterinary Science. 2026;13:1867008. DOI: 10.3389/fvets.2026.1867008.
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