É comum observar cães que urinam em diversos pontos ao longo de uma caminhada, mesmo quando já fizeram suas necessidades antes de sair de casa.
Em muitos casos, essas pequenas micções não estão relacionadas apenas ao esvaziamento da bexiga. Elas fazem parte da marcação urinária, um comportamento de comunicação química no qual o cão deposita pequenas quantidades de urina em determinados locais do ambiente.
Durante os passeios, cheiros deixados por outros animais oferecem uma grande quantidade de informações olfativas. O cão investiga esses odores e pode responder deixando sua própria marca. Esse comportamento é considerado natural e pode ocorrer em machos e fêmeas, inclusive em animais castrados. (Youngerman, 2019; Lindell et al., s.d.)

O que é marcação urinária?
A marcação urinária é diferente da micção realizada principalmente para esvaziar uma bexiga cheia.
Na marcação, o cão geralmente elimina pequenos volumes de urina em diferentes pontos. Já quando o objetivo predominante é esvaziar a bexiga, normalmente ocorre a eliminação de um volume maior de uma só vez. (Lindell et al., s.d.; Youngerman, 2019)
Os cães utilizam sinais químicos presentes na urina como parte de sua comunicação. É por isso que, durante uma caminhada, podem passar bastante tempo cheirando postes, árvores, gramados e locais previamente utilizados por outros cães antes de decidir urinar.
A marcação é mais frequentemente observada em machos não castrados, mas não é exclusiva deles. Fêmeas e cães castrados também podem apresentar esse comportamento. (Lindell et al., s.d.)
Por que os passeios estimulam esse comportamento?
Fora de casa, o cão encontra uma diversidade muito maior de odores e estímulos do que em um ambiente interno relativamente estável.
Cada trajeto pode apresentar:
- odores de outros cães e animais;
- marcas urinárias anteriores;
- diferentes superfícies;
- sons e movimentos;
- pessoas;
- mudanças ambientais;
- novos locais para investigação.
Por isso, caminhar não representa apenas atividade física. O passeio também oferece oportunidades de exploração sensorial e expressão de comportamentos naturais.
A American Animal Hospital Association inclui os chamados sniff walks — passeios nos quais o cão pode explorar odores no próprio ritmo — entre as estratégias de enriquecimento sensorial para cães. (AAHA, 2026)
Deixar o cão cheirar durante o passeio é importante?
O olfato ocupa um papel central na maneira como os cães exploram o ambiente.
Por isso, um passeio não precisa ser apenas uma caminhada contínua em determinada velocidade. Quando o ambiente é seguro, permitir pausas para cheirar e investigar diferentes locais oferece ao animal oportunidades adicionais de exploração.
Atividades baseadas no olfato vêm sendo estudadas como formas de enriquecimento para cães. Uma revisão de escopo publicada na Applied Animal Behaviour Science identificou pesquisas envolvendo cães de companhia, cães de trabalho e cães de abrigos expostos a diferentes atividades olfativas. Os autores destacam, entretanto, que ainda existem lacunas importantes sobre seus efeitos específicos no comportamento, na fisiologia e no bem-estar dos cães. (Fountain et al., 2025)
Portanto, é adequado considerar a exploração olfativa uma parte relevante da experiência do passeio, sem transformar seus possíveis benefícios em afirmações clínicas além do que as evidências atualmente demonstram.
O passeio vai além das necessidades fisiológicas
Mesmo quando o cão dispõe de tapete higiênico, sanitário pet, pátio ou outro local apropriado para urinar em casa, os passeios podem oferecer experiências que não estão disponíveis da mesma forma no ambiente doméstico.
Entre elas estão o movimento, a exploração de novos odores e superfícies, o contato controlado com diferentes ambientes e a interação com o responsável.
A rotina deve, entretanto, respeitar as características individuais de cada animal. Idade, condição física, doenças preexistentes, temperatura ambiental, porte e tolerância ao exercício podem modificar a duração e a intensidade apropriadas para cada cão.
Filhotes, animais idosos e cães com alterações cardiovasculares, respiratórias ou ortopédicas podem necessitar de adaptações específicas.
Fazer xixi várias vezes no passeio é sempre normal?
Não.
É importante diferenciar marcação urinária fisiológica de uma alteração verdadeira na frequência ou na dificuldade para urinar.
Um cão saudável que cheira diversos locais e deposita pequenas quantidades de urina ao longo do passeio pode estar simplesmente realizando marcação.
Já uma mudança repentina no padrão urinário pode indicar alteração do trato urinário e deve ser avaliada.
Distúrbios da micção podem causar aumento da frequência das tentativas de urinar, dificuldade para urinar, gotejamento ou alterações no fluxo urinário. A investigação pode envolver histórico clínico, exame físico, urinálise e, dependendo do caso, exames de imagem ou outros testes. (Van Vertloo, 2025)
Quais sinais urinários merecem atenção?
Procure avaliação médico-veterinária se o cão apresentar:
- aumento repentino da frequência urinária;
- repetidas tentativas de urinar com eliminação de pouca quantidade;
- esforço ou dificuldade para urinar;
- vocalização ou sinais de dor;
- sangue na urina;
- perda involuntária de urina;
- mudança repentina no hábito de urinar dentro de casa;
- aumento importante da ingestão de água associado a maior volume urinário.
Infecções do trato urinário podem provocar micções frequentes, esforço, desconforto e presença de sangue na urina. (Barnes, Weir & Downing, s.d.)
A tentativa persistente de urinar sem conseguir eliminar urina merece atenção imediata. Obstruções urinárias podem causar alterações sistêmicas graves e potencialmente fatais. (Van Vertloo, 2025)
Quantos passeios um cão deve fazer por dia?
Não existe uma frequência única adequada para todos os cães.
As necessidades variam de acordo com idade, condição física, rotina, comportamento, ambiente, saúde e características individuais.
Além da quantidade de caminhadas, também é importante considerar como o passeio acontece. Uma caminhada pode envolver oportunidades para movimentação, exploração olfativa, eliminação e interação com o ambiente.
Para alguns cães, caminhadas mais longas podem ser apropriadas. Para outros, passeios mais curtos e frequentes podem fazer mais sentido.
Quando houver doença, limitação física ou dúvida sobre a quantidade adequada de exercício, a rotina deve ser discutida com o médico-veterinário.
Conclusão
Urinar várias vezes durante o passeio pode fazer parte de um comportamento perfeitamente natural dos cães.
Em muitos casos, pequenas micções distribuídas pelo trajeto representam marcação urinária, uma das formas pelas quais o cão interage com as informações olfativas presentes no ambiente.
Os passeios também oferecem oportunidades de movimento, exploração e enriquecimento sensorial, indo muito além de simplesmente levar o animal para fazer suas necessidades.
O mais importante é conhecer o padrão habitual do cão. Quando surgem mudanças repentinas na frequência urinária, dor, esforço, sangue ou dificuldade para eliminar urina, é importante procurar avaliação médico-veterinária.
Renan Sparremberger
Referências
AMERICAN ANIMAL HOSPITAL ASSOCIATION (AAHA). Enrichment: Supporting your pet’s mental and emotional wellbeing at home. Publicado em 10 fev. 2026. Disponível em: AAHA — Enrichment: Supporting your pet’s mental and emotional wellbeing at home. Acesso em: 15 set. 2026.
BARNES, C.; WEIR, M.; DOWNING, R. Urinary Tract Infections (UTIs) in Dogs. VCA Animal Hospitals. Disponível em: VCA Animal Hospitals — Urinary Tract Infections (UTIs) in Dogs. Acesso em: 15 set. 2026.
FOUNTAIN, J.; FERNANDEZ, E. J.; McWHORTER, T. J.; HAZEL, S. J. The value of sniffing: A scoping review of scent activities for canines. Applied Animal Behaviour Science, v. 282, art. 106485, 2025. DOI: 10.1016/j.applanim.2024.106485. Disponível em: Artigo — ScienceDirect.
LINDELL, E.; FEYRECILDE, M.; HORWITZ, D.; LANDSBERG, G. Dog Behavior Problems: Marking Behavior. VCA Animal Hospitals. Disponível em: VCA Animal Hospitals — Dog Behavior Problems: Marking Behavior. Acesso em: 15 set. 2026.
VAN VERTLOO, L. Disorders of Micturition in Dogs and Cats. MSD Veterinary Manual. Revisão completa: mar. 2025. Última atualização: mar. 2025. Disponível em: MSD Veterinary Manual — Disorders of Micturition in Dogs and Cats. Acesso em: 15 set. 2026.
VAN VERTLOO, L. Obstructive Uropathy in Dogs and Cats. MSD Veterinary Manual. Revisão completa: mar. 2025; atualização: jun. 2025. Disponível em: MSD Veterinary Manual — Obstructive Uropathy in Dogs and Cats. Acesso em: 15 set. 2026.
YOUNGERMAN, C. Urine Marking in Dogs. University of California, Davis — School of Veterinary Medicine, 12 abr. 2019. Disponível em: UC Davis — Urine Marking in Dogs. Acesso em: 15 set. 2026.
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