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A leishmaniose é uma doença causada por protozoários do gênero Leishmania e representa um importante desafio para a saúde animal e humana. No Brasil, a leishmaniose visceral merece atenção especial porque pode acometer cães e seres humanos e está presente em diferentes regiões do país.

Ao contrário de uma ideia ainda comum, o cão infectado não transmite diretamente a doença para uma pessoa por contato, lambidas, carinho ou convivência. A principal transmissão ocorre por meio da picada de fêmeas infectadas de pequenos insetos chamados flebotomíneos, conhecidos popularmente como mosquito-palha, birigui ou tatuquira (Brasil, 2026).

A prevenção, portanto, envolve mais do que observar o animal: é preciso reduzir o contato com o vetor, cuidar do ambiente e manter acompanhamento médico-veterinário.

Durante o Agosto Verde Claro, a medicina veterinária reforça justamente a conscientização sobre doenças importantes dos animais, entre elas a leishmaniose. A campanha é uma oportunidade para ampliar o acesso à informação, incentivar a prevenção e lembrar que esse cuidado precisa continuar durante todo o ano (CRMV-RS, 2024; CRMV-MA, 2026).

 

Cão usando coleira antiparasitária em área externa, com flebotomíneos ao redor, representando a prevenção da leishmaniose canina.

 

O que é a leishmaniose?

As leishmanioses formam um grupo de doenças causadas por diferentes espécies de protozoários do gênero Leishmania.

Elas podem apresentar manifestações distintas. Entre as principais estão a leishmaniose visceral, que pode atingir diversos órgãos internos, e a leishmaniose tegumentar, relacionada principalmente a lesões de pele e mucosas.

Nas Américas, a espécie mais frequentemente relacionada à leishmaniose visceral é a Leishmania infantum (Brasil, 2026).

Para os cães e para a saúde pública brasileira, a leishmaniose visceral apresenta particular importância. No ambiente urbano, o cão participa de maneira relevante no ciclo epidemiológico da doença porque um flebotomíneo pode se infectar ao realizar o repasto sanguíneo em um animal infectado e, posteriormente, transmitir o parasito a outros hospedeiros.

Isso não significa que o cão seja responsável pela transmissão direta para uma pessoa. É necessária a participação do vetor no ciclo habitual de transmissão.

 

O que é o mosquito-palha?

Apesar do nome popular, o chamado mosquito-palha pertence ao grupo dos flebotomíneos, pequenos insetos da família Psychodidae.

Eles medem aproximadamente 2 a 3 milímetros e recebem diferentes nomes populares dependendo da região, incluindo mosquito-palha, birigui e tatuquira.

No Brasil, o Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral de 2026 relaciona três espécies à transmissão da doença: Lutzomyia longipalpis, Lutzomyia cruzi e, mais recentemente, Migonemyia migonei. A Lutzomyia longipalpis apresenta ampla distribuição no território brasileiro (Brasil, 2026).

Somente as fêmeas transmitem a doença?

As fêmeas dos flebotomíneos realizam alimentação sanguínea porque necessitam do sangue para a maturação dos ovos.

Quando uma fêmea infectada realiza o repasto sanguíneo, pode inocular formas infectantes do parasito no hospedeiro. O ciclo continua quando novos vetores se alimentam em animais infectados e adquirem o parasito.

 

O mosquito-palha se reproduz em água parada?

Esse é um ponto importante: a prevenção da leishmaniose não deve ser confundida com a prevenção da dengue.

Os estágios imaturos dos flebotomíneos desenvolvem-se principalmente em ambientes terrestres que apresentam matéria orgânica, umidade e condições adequadas de temperatura. Por isso, quintais com folhas e frutos acumulados, resíduos orgânicos, madeira, esterco, vegetação muito densa, sombra e umidade podem favorecer ambientes propícios ao vetor (Brasil, 2026).

Portanto, apenas eliminar recipientes com água parada não é suficiente para prevenir a leishmaniose.

 

Como o cão contrai leishmaniose?

A principal forma de infecção ocorre quando uma fêmea de flebotomíneo infectada pica o cão.

Depois de entrar no organismo, o parasito é incorporado por células de defesa e pode se disseminar para diferentes tecidos e órgãos, fazendo da leishmaniose visceral canina uma doença sistêmica e de evolução geralmente crônica (Brasil, 2026).

O período entre a infecção e o aparecimento da doença pode ser bastante variável. Nos cães, o Ministério da Saúde descreve um período que pode variar de aproximadamente três meses a vários anos.

 

O cão passa leishmaniose diretamente para uma pessoa?

Não pela convivência cotidiana.

A leishmaniose visceral não é transmitida pelo simples contato com o cão infectado. Carinho, lambidas, compartilhamento do ambiente ou proximidade com o animal não representam a forma habitual de transmissão.

O problema epidemiológico ocorre porque o cão infectado pode servir como fonte do parasito para o flebotomíneo, que posteriormente pode transmitir a infecção durante outro repasto sanguíneo (Brasil, 2026).

Por isso, proteger os cães das picadas também faz parte de uma abordagem de Saúde Única, que considera conjuntamente a saúde dos animais, das pessoas e do ambiente.

 

Quais são os sintomas da leishmaniose em cães?

A leishmaniose visceral canina pode apresentar manifestações muito diferentes entre os animais.

Entre os achados clínicos descritos estão:

  • alterações e lesões de pele;

  • perda progressiva de peso;

  • diminuição do apetite;

  • aumento dos linfonodos;

  • perda de massa muscular;

  • alterações oculares;

  • lesões no focinho;

  • aumento do baço;

  • aumento da ingestão de água e da produção de urina;

  • claudicação;

  • diarreia;

  • vômitos;

  • crescimento excessivo ou alterações nas unhas.

Alterações dermatológicas estão entre as manifestações mais frequentes e podem incluir perda de pelos, descamação, úlceras e crescimento anormal das unhas (Brasil, 2026).

Entretanto, nenhum desses sinais isoladamente confirma leishmaniose. Diversas doenças podem apresentar manifestações semelhantes.

 

Um cão infectado pode não apresentar sintomas?

Sim.

Esse é um dos aspectos que tornam a vigilância da doença mais complexa. Cães infectados podem permanecer sem sinais clínicos durante determinado período e ainda assim serem capazes de infectar o flebotomíneo durante o repasto sanguíneo (Brasil, 2026).

Por isso, principalmente em regiões com transmissão ou quando o animal esteve em áreas de risco, o histórico epidemiológico deve fazer parte da avaliação veterinária.

 

Como é feito o diagnóstico da leishmaniose canina?

O diagnóstico não deve se basear apenas na aparência do cão.

O médico-veterinário considera o histórico, os sinais clínicos, a região onde o animal vive ou para onde viajou e os resultados dos exames complementares.

Existem diferentes métodos laboratoriais, incluindo testes sorológicos, parasitológicos e técnicas moleculares.

No Programa de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral do Ministério da Saúde, o TR-DPP é utilizado como teste de triagem e o ELISA como método confirmatório nos inquéritos sorológicos caninos realizados pela saúde pública (Brasil, 2026).

Na prática clínica veterinária, outros exames podem ser necessários de acordo com o caso.

 

Como prevenir a leishmaniose em cães?

A prevenção é mais eficiente quando diferentes estratégias são utilizadas em conjunto.

1. Reduzir o contato do cão com o vetor

Uma das principais medidas é o uso de produtos veterinários com ação inseticida e repelente contra flebotomíneos.

O Ministério da Saúde recomenda que cães residentes em áreas com transmissão utilizem produtos adequados, que podem existir em diferentes apresentações. A escolha deve ser realizada com orientação do médico-veterinário e considerando a espécie, idade, condição de saúde e indicação do produto (Brasil, 2026).

2. Usar coleira antiparasitária com indicação contra o mosquito-palha

Nem toda coleira antiparasitária oferece a mesma proteção.

Para prevenção da leishmaniose, é importante verificar se o produto possui ação repelente/inseticida contra flebotomíneos.

As coleiras impregnadas com deltametrina a 4% fazem parte das estratégias incorporadas pelo Ministério da Saúde para controle da leishmaniose visceral. Estudos utilizados pelo programa demonstraram redução da prevalência canina nas áreas onde a estratégia foi implementada (Brasil, 2026).

O manual de 2026 ressalta que a coleira de deltametrina utilizada na estratégia é destinada exclusivamente a cães e que seu uso deve respeitar as recomendações do produto. Portanto, não se deve utilizar um produto desenvolvido para cães em gatos ou outras espécies sem indicação específica.

3. Manter o ambiente limpo

O manejo ambiental é outra parte importante da prevenção.

É recomendável:

  • recolher folhas e frutos acumulados no chão;

  • retirar matéria orgânica em decomposição;

  • evitar acúmulo de madeira, telhas e outros materiais;

  • manter quintais limpos;

  • realizar podas quando houver vegetação excessivamente densa;

  • reduzir locais constantemente úmidos e sombreados;

  • manter adequadamente áreas onde permanecem animais.

O objetivo é diminuir condições ambientais favoráveis ao desenvolvimento dos flebotomíneos (Brasil, 2026).

4. Reduzir a exposição nos horários de maior atividade do vetor

Os flebotomíneos apresentam maior atividade principalmente no crepúsculo e durante a noite.

Em áreas de transmissão, reduzir a exposição nesses horários pode contribuir para diminuir o contato entre o vetor, animais e pessoas. Telas de malha fina em determinados ambientes também podem servir como barreira física (Brasil, 2026; SES-RS).

5. Avaliar a vacinação com o médico-veterinário

A vacinação antileishmaniose pode ser considerada uma medida de proteção individual para determinados cães, conforme avaliação veterinária, situação epidemiológica, disponibilidade e regularidade dos produtos autorizados.

É importante compreender que a vacinação não substitui as medidas de proteção contra o vetor.

O Ministério da Saúde destaca ainda que, até o momento, não há evidências suficientes para considerar a vacinação em massa dos cães uma estratégia capaz, isoladamente, de controlar a transmissão da leishmaniose visceral em saúde pública (Brasil, 2026).

Como registros e disponibilidade comercial de vacinas podem sofrer alterações, o médico-veterinário deve verificar a situação atual dos produtos regulamentados antes da indicação.

 

Existe tratamento para leishmaniose canina?

Sim, existem protocolos terapêuticos regulamentados no Brasil, mas há uma diferença importante entre melhora clínica e eliminação completa do parasito.

O tratamento pode reduzir a carga parasitária e melhorar os sinais clínicos, porém não necessariamente produz cura parasitológica. Dessa forma, mesmo após melhora, o cão pode continuar portando Leishmania e permanecer capaz de infectar o flebotomíneo (Brasil, 2026).

Por isso, cães em tratamento precisam de acompanhamento médico-veterinário contínuo, exames periódicos e proteção contra o vetor.

A escolha do protocolo depende do estado clínico do paciente e deve ser realizada exclusivamente pelo médico-veterinário.

 

Por que a leishmaniose também é uma questão de saúde pública?

Porque o ciclo da doença conecta animal, vetor, ambiente e seres humanos.

No Brasil, a leishmaniose visceral deixou de apresentar apenas um padrão predominantemente rural e passou, ao longo das últimas décadas, a ser registrada também em áreas periurbanas e urbanas. O Ministério da Saúde informa que a doença está atualmente presente nas cinco regiões brasileiras (Brasil, 2026).

Entre 2015 e 2024, foram registrados mais de 24 mil casos humanos de leishmaniose visceral no país, segundo dados compilados no novo manual do Ministério da Saúde.

A prevenção, portanto, não depende de uma única intervenção. Vigilância, diagnóstico, proteção dos cães, manejo ambiental, redução do vetor e educação em saúde precisam atuar de forma integrada.

 

Agosto Verde Claro: um mês para falar de prevenção

O Agosto Verde Claro reforça a conscientização sobre doenças importantes na medicina veterinária. A campanha é associada à prevenção e ao diagnóstico precoce da leishmaniose e também vem sendo utilizada para chamar atenção para enfermidades relevantes dos felinos, como FIV e FeLV (CRMV-RS, 2024; CRMV-MA, 2026).

No caso da leishmaniose, a mensagem mais importante não deveria ficar restrita ao mês de agosto.

Prevenir significa manter a proteção contra o vetor de forma adequada, cuidar do ambiente, conhecer a situação epidemiológica da região e procurar orientação veterinária sempre que houver suspeita ou exposição.

 

Perguntas frequentes sobre leishmaniose

Leishmaniose passa de cachorro para humano?

Não diretamente. A principal transmissão ocorre pela picada de uma fêmea de flebotomíneo infectada.

Cachorro com leishmaniose pode viver com a família?

O contato cotidiano não representa a forma habitual de transmissão. O animal diagnosticado, entretanto, precisa de acompanhamento veterinário e proteção rigorosa contra o vetor.

Todo cachorro com leishmaniose apresenta sintomas?

Não. Alguns cães podem permanecer assintomáticos durante determinado período.

Coleira antiparasitária previne leishmaniose?

Algumas podem ajudar, mas nem toda coleira antiparasitária protege contra flebotomíneos. É necessário utilizar produto com indicação específica e orientação médico-veterinária.

Água parada causa mosquito-palha?

Não é o principal ambiente de reprodução desse vetor. Os flebotomíneos desenvolvem suas formas imaturas principalmente em ambientes terrestres ricos em matéria orgânica, umidade e sombra.

A vacina substitui a coleira repelente?

Não. Quando indicada, a vacinação é uma estratégia complementar de proteção individual e não substitui o controle do vetor.

Leishmaniose tem cura em cães?

O tratamento pode melhorar os sinais clínicos e reduzir a carga parasitária, mas não garante a eliminação completa do parasito. O acompanhamento precisa ser contínuo.

 

Informação e prevenção caminham juntas

A leishmaniose visceral mostra de forma clara como a saúde dos animais, das pessoas e do ambiente estão interligadas.

Conhecer o vetor, evitar ambientes favoráveis à sua proliferação, utilizar métodos adequados de proteção e reconhecer sinais que precisam de avaliação são atitudes que ajudam a reduzir riscos.

Mais do que esperar o aparecimento de sintomas, prevenir significa construir uma rotina de proteção ao longo do ano.

Cuidar dos nossos heróis também é compreender os riscos que não conseguimos enxergar.

Por amor aos nossos heróis.

 

Autor: Renan Sparremberger

 

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Manual de vigilância e controle da leishmaniose visceral. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 137 p. ISBN 978-85-334-2913-0.

CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA VETERINÁRIA DO MARANHÃO — CRMV-MA. Agosto Verde-Claro reforça importância da prevenção da leishmaniose. São Luís, 24 ago. 2026.

CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA VETERINÁRIA DO RIO GRANDE DO SUL — CRMV-RS. Trensurb apoia campanha do CRMV-RS sobre prevenção de doenças em pets. Porto Alegre, 23 ago. 2024.

RIO GRANDE DO SUL. Secretaria da Saúde. Leishmaniose visceral: prevenção e controle. Porto Alegre: Secretaria da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul.

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