As zoonoses são doenças que podem ser transmitidas naturalmente entre os animais e os seres humanos. Embora esse tema frequentemente gere preocupação, é importante destacar que a convivência com cães e gatos é extremamente segura quando os animais recebem os cuidados preventivos adequados. A medicina veterinária preventiva desempenha um papel fundamental na proteção da saúde animal, humana e ambiental, conceito conhecido como Saúde Única (One Health) (WOAH, 2024; CDC, 2023).
Durante o Julho Dourado, campanha dedicada à conscientização sobre a vacinação e a prevenção de doenças em animais, reforça-se também a importância do controle das zoonoses, contribuindo para a saúde de toda a família.

O que são zoonoses?
As zoonoses são enfermidades causadas por vírus, bactérias, fungos, protozoários ou parasitas capazes de serem transmitidos entre animais e pessoas, de forma direta ou indireta. A transmissão pode ocorrer por meio do contato com saliva, urina, fezes, sangue, secreções, mordidas, arranhões, alimentos contaminados ou pela ação de vetores, como pulgas, carrapatos e mosquitos (CDC, 2023; WOAH, 2024).
É importante destacar que nem todos os cães ou gatos transmitem zoonoses. Na maioria dos casos, os riscos podem ser reduzidos significativamente por meio de vacinação, controle de parasitas, higiene adequada, alimentação segura e acompanhamento periódico com o médico-veterinário (Anclivepa Brasil, 2023; WSAVA, 2023).
O conceito de Saúde Única (One Health)
A medicina veterinária moderna adota o conceito de Saúde Única (One Health), reconhecido mundialmente pela Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH), que considera a saúde humana, animal e ambiental como interdependentes. Dessa forma, prevenir doenças nos animais também representa uma medida importante de proteção para toda a sociedade (WOAH, 2024).
Principais zoonoses em cães e gatos
Raiva
A raiva é uma doença viral grave que afeta o sistema nervoso central de mamíferos, incluindo seres humanos. A transmissão ocorre principalmente pela mordida de animais infectados, por meio da saliva. Após o aparecimento dos sinais clínicos, a doença apresenta elevada taxa de letalidade tanto em animais quanto em pessoas (MAPA, 2022; WOAH, 2024).
A vacinação periódica permanece como a principal forma de prevenção.
Leptospirose
A leptospirose é causada por bactérias do gênero Leptospira. Os cães podem ser infectados principalmente pelo contato com água ou solo contaminados pela urina de animais infectados, especialmente roedores. Os seres humanos também podem adquirir a doença por esse mesmo mecanismo (CDC, 2023; MAPA, 2022).
A prevenção envolve vacinação quando indicada pelo médico-veterinário, controle de roedores, saneamento e evitar contato com áreas alagadas potencialmente contaminadas.
Leishmaniose
A leishmaniose é transmitida pela picada do flebotomíneo ("mosquito-palha"), e não diretamente entre cães e pessoas. Os cães atuam como importantes reservatórios da doença em determinadas regiões do Brasil, tornando fundamentais as medidas de prevenção contra o vetor (MAPA, 2022; WOAH, 2024).
O uso de coleiras repelentes, repelentes tópicos e a vacinação, quando indicada, fazem parte das estratégias preventivas.
Toxocaríase
A toxocaríase é causada por vermes intestinais do gênero Toxocara. A infecção humana ocorre principalmente pela ingestão acidental de ovos presentes em ambientes contaminados por fezes de cães ou gatos parasitados (Bowman, 2023; CDC, 2023).
A vermifugação periódica dos animais e a correta coleta das fezes são medidas importantes de prevenção.
Giardíase
A giardíase é causada pelo protozoário Giardia duodenalis. Embora alguns genótipos possam infectar seres humanos, a transmissão direta entre cães e pessoas parece ser menos frequente do que se acreditava anteriormente. Ainda assim, a higiene ambiental e o manejo adequado das fezes continuam sendo importantes medidas preventivas (CDC, 2023).
Dermatofitose (Micose)
As dermatofitoses são infecções causadas por fungos que acometem pele, pelos e unhas. Algumas espécies podem ser transmitidas entre animais e seres humanos por contato direto ou com objetos contaminados (Carlotti & Bensignor, 2023).
O diagnóstico precoce e o tratamento adequado reduzem significativamente o risco de transmissão.
Doença da Arranhadura do Gato
A doença é causada pela bactéria Bartonella henselae e está associada principalmente a arranhões ou mordidas de gatos infectados, especialmente filhotes. O controle de pulgas é uma importante medida preventiva (CDC, 2023).
Como proteger sua família e seus pets
A prevenção das zoonoses depende principalmente de cuidados rotineiros de medicina preventiva.
Entre as principais recomendações estão:
- manter o calendário vacinal atualizado;
- realizar vermifugação conforme orientação do médico-veterinário;
- controlar pulgas, carrapatos e outros parasitas;
- recolher as fezes durante os passeios;
- manter boa higiene das mãos após manipular os animais ou limpar caixas de areia;
- oferecer alimentação adequada e água potável;
- realizar consultas veterinárias periódicas;
- evitar contato com animais silvestres ou desconhecidos;
- procurar atendimento veterinário diante de qualquer alteração clínica.
Essas medidas reduzem significativamente o risco de transmissão de doenças tanto para os animais quanto para as pessoas (Anclivepa Brasil, 2023; WSAVA, 2023).
Mitos e verdades sobre zoonoses
Mito: Conviver com cães e gatos faz mal para a saúde.
Falso. Animais saudáveis, acompanhados pelo médico-veterinário e que recebem cuidados preventivos apresentam baixo risco de transmissão de zoonoses. Diversos estudos demonstram, inclusive, benefícios físicos, emocionais e sociais da convivência com animais de companhia (WSAVA, 2023).
Mito: Toda doença dos animais pode ser transmitida para humanos.
Falso. A maioria das doenças que acometem cães e gatos não é transmissível para seres humanos (CDC, 2023).
Verdade: Vacinação protege também a saúde das pessoas.
Verdade. Algumas vacinas, como a antirrábica, representam uma importante estratégia de saúde pública, protegendo tanto os animais quanto a população (MAPA, 2022; WOAH, 2024).
Verdade: Higiene é uma das principais formas de prevenção.
Verdade. A correta higiene das mãos, dos ambientes e o manejo adequado das fezes reduzem significativamente o risco de diversas zoonoses (CDC, 2023).
O papel do médico-veterinário na prevenção
O médico-veterinário é o profissional capacitado para orientar medidas de prevenção, realizar vacinação, controle de parasitas, diagnóstico precoce e tratamento das zoonoses. Além de cuidar da saúde dos animais, sua atuação possui importante impacto na saúde pública e na prevenção de doenças que podem acometer toda a família (WOAH, 2024).
Conclusão
As zoonoses fazem parte da rotina da medicina veterinária preventiva, mas não devem ser motivo para afastar as pessoas de seus animais de companhia. Com acompanhamento veterinário, vacinação, controle de parasitas, higiene e informação baseada em evidências científicas, é possível reduzir significativamente os riscos de transmissão.
Cuidar da saúde do seu pet também é cuidar da saúde da sua família. Essa é uma das principais mensagens do Julho Dourado e do conceito de Saúde Única, que reforçam a importância da prevenção para promover qualidade de vida a animais e seres humanos.
Referências
ANCLIVEPA Brasil. Diretrizes nacionais de medicina preventiva em pequenos animais. São Paulo, 2023.
BOWMAN, D. D. Georgis' Parasitology for Veterinarians. 12. ed. Elsevier, 2023.
CARLOTTI, D. N.; BENSIGNOR, E. Canine Dermatology: Diagnosis and Treatment. Wiley-Blackwell, 2023.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Parasites: zoonotic diseases associated with dogs and cats. 2023.
MINISTÉRIO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA (MAPA). Manual de Boas Práticas de Saúde Animal. Brasília, 2022.
WORLD ORGANISATION FOR ANIMAL HEALTH (WOAH). Terrestrial Animal Health Code: Companion Animal Section. 2024.
WORLD SMALL ANIMAL VETERINARY ASSOCIATION (WSAVA). Global Guidelines for Canine Health and Welfare. 2023.
Renan Sparremberger
Fundador da Heroz – Especialista em comportamento e bem-estar canino
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