A alimentação é um dos pilares mais importantes da saúde e do bem-estar de cães e gatos. Assim como acontece na medicina humana, a nutrição veterinária evoluiu significativamente nas últimas décadas, permitindo o desenvolvimento de formulações cada vez mais equilibradas, seguras e específicas para diferentes fases da vida e condições de saúde dos animais.
As rações comerciais completas são formuladas para atender às necessidades nutricionais de cada espécie, seguindo critérios científicos estabelecidos por órgãos internacionais de referência, como a AAFCO (Association of American Feed Control Officials) e a FEDIAF (European Pet Food Industry Federation), além de diretrizes amplamente utilizadas na nutrição veterinária clínica (AAFCO, 2023; FEDIAF, 2024).
Mas afinal, do que a ração é feita?
E o que realmente diferencia uma formulação nutricional de outra?
A seguir, você encontra uma explicação clara, técnica e baseada em ciência veterinária sobre os principais componentes presentes nos alimentos industrializados para cães e gatos.

Proteínas: a base da nutrição carnívora
As proteínas são um dos componentes mais importantes da alimentação de cães e gatos. Elas participam da formação e manutenção dos músculos, da pele, do pelo, das enzimas, hormônios, anticorpos e de diversas funções metabólicas essenciais ao organismo (Freeman et al., 2023).
As principais fontes proteicas utilizadas nas rações incluem:
• carne de frango
• carne bovina
• carne suína
• peixes
• ovos
• proteínas desidratadas de alta digestibilidade
A qualidade da proteína não depende apenas da quantidade presente na embalagem, mas também da digestibilidade e do perfil de aminoácidos oferecido pela dieta.
Dietas com proteínas mais digestíveis tendem a proporcionar melhor aproveitamento nutricional, manutenção muscular mais eficiente e menor produção de resíduos fecais.
📌 Observação importante:
A carne suína utilizada em rações industrializadas é considerada segura quando submetida ao processamento adequado. Durante a fabricação, os ingredientes passam por controle sanitário e processamento térmico, reduzindo riscos microbiológicos (AAFCO, 2023).
O cuidado maior existe em relação à oferta de carne crua sem controle sanitário adequado.
Carboidratos: energia e suporte metabólico
Embora cães e gatos possuam características carnívoras, os carboidratos podem fazer parte da alimentação de forma segura e funcional quando corretamente formulados e processados (Freeman et al., 2023).
Nas rações comerciais, os carboidratos exercem funções importantes, como:
• fornecimento de energia;
• participação na estrutura do grão da ração;
• suporte metabólico;
• contribuição para digestibilidade e estabilidade do alimento.
Entre os ingredientes mais utilizados estão:
• arroz;
• milho processado;
• mandioca;
• batata;
• aveia;
• cevada.
Um ponto importante é que o valor nutricional não depende apenas do ingrediente isolado, mas também do processamento utilizado.
A maioria das rações secas passa pelo processo de extrusão, no qual temperatura, pressão e umidade ajudam a aumentar a digestibilidade dos nutrientes e melhorar o aproveitamento energético da dieta (Case et al., 2011).
Muitos mitos surgiram nos últimos anos sobre carboidratos em alimentos pet. No entanto, o problema não está necessariamente na presença do carboidrato, mas sim na qualidade da formulação, no equilíbrio nutricional, na digestibilidade e na adequação daquela dieta para o animal específico.
Gorduras: energia, pele e palatabilidade
As gorduras desempenham papel extremamente importante na alimentação dos animais.
Além de fornecerem energia altamente concentrada, participam de funções metabólicas importantes relacionadas à pele, pelagem, sistema nervoso, absorção de vitaminas lipossolúveis e resposta inflamatória (WSAVA, 2023).
Entre os principais benefícios das gorduras na alimentação estão:
• manutenção da saúde da pele;
• brilho e qualidade do pelo;
• suporte neurológico;
• maior palatabilidade do alimento;
• fornecimento de ácidos graxos essenciais.
As fontes mais comuns incluem:
• gordura de frango;
• óleo de peixe;
• óleo de salmão;
• óleos vegetais adequados;
• gordura animal estabilizada.
Os ácidos graxos ômega 3 e ômega 6 merecem destaque especial, pois participam de processos importantes relacionados à pele, articulações, imunidade e modulação inflamatória (Freeman et al., 2023).
Fibras: saúde intestinal e microbiota
As fibras possuem papel importante na saúde gastrointestinal e no equilíbrio da microbiota intestinal.
Elas ajudam a regular o trânsito intestinal, influenciam a consistência das fezes e podem contribuir para o controle glicêmico e sensação de saciedade em algumas dietas específicas (Case et al., 2011).
As principais fontes incluem:
• polpa de beterraba;
• fibras vegetais;
• psyllium;
• celulose;
• ingredientes funcionais específicos.
Hoje, sabemos que a microbiota intestinal exerce influência importante não apenas na digestão, mas também na imunidade e em diferentes processos metabólicos do organismo.
Por isso, muitas formulações modernas passaram a incluir componentes voltados ao suporte intestinal.
Vitaminas e minerais: equilíbrio nutricional
As rações completas possuem um conjunto de vitaminas e minerais formulados para atender às necessidades diárias dos animais de acordo com espécie, porte, idade e fase da vida (AAFCO, 2023; FEDIAF, 2024).
Esses nutrientes participam de funções fundamentais, como:
• metabolismo energético;
• manutenção óssea;
• funcionamento neurológico;
• imunidade;
• contração muscular;
• saúde da pele e do pelo;
• prevenção de deficiências nutricionais.
O balanceamento adequado é extremamente importante.
Tanto a deficiência quanto o excesso de determinados nutrientes podem causar problemas de saúde.
Por isso, dietas caseiras sem formulação profissional podem gerar desequilíbrios importantes quando não são corretamente suplementadas e acompanhadas por médico-veterinário nutrólogo.
Componentes funcionais: além da nutrição básica
Algumas formulações incluem ingredientes com funções específicas voltadas ao suporte de determinadas condições fisiológicas ou necessidades individuais.
Entre os componentes funcionais mais utilizados estão:
• prebióticos;
• probióticos;
• antioxidantes naturais;
• glucosamina e condroitina;
• ácidos graxos essenciais;
• suportes dermatológicos;
• componentes digestivos específicos.
Esses ingredientes podem auxiliar em objetivos nutricionais específicos relacionados à saúde intestinal, articulações, pele, imunidade e envelhecimento saudável.
É importante lembrar que esses componentes não substituem tratamento veterinário quando existe doença instalada, mas podem atuar como suporte dentro de uma estratégia nutricional adequada.
Como a ração é produzida?
A maioria das rações secas é produzida por extrusão.
Nesse processo, os ingredientes passam por moagem, mistura, cozimento sob pressão e alta temperatura, formando os grãos secos conhecidos como “kibbles”.
A extrusão possui funções importantes:
• melhora a digestibilidade;
• reduz riscos microbiológicos;
• aumenta estabilidade do alimento;
• melhora textura e conservação;
• contribui para padronização nutricional.
Após a formação dos grãos, muitas formulações recebem aplicação externa de gorduras, palatabilizantes e componentes específicos para melhorar aceitação e perfil nutricional.
O controle de qualidade durante a produção é importante para garantir segurança alimentar, estabilidade nutricional e padronização entre os lotes.
O que realmente diferencia uma ração da outra?
A classificação comercial “standard”, “premium” e “super premium” não define qualidade absoluta de forma isolada.
Ela funciona mais como uma referência comercial do que como garantia única de qualidade nutricional.
O que realmente diferencia uma formulação de outra envolve diversos fatores técnicos.
1. Digestibilidade
A digestibilidade indica quanto do alimento o organismo realmente consegue absorver e utilizar.
Dietas mais digestíveis tendem a proporcionar:
• melhor aproveitamento nutricional;
• menor volume fecal;
• melhor resposta metabólica;
• maior eficiência alimentar.
2. Qualidade e especificidade dos ingredientes
Formulações mais detalhadas costumam apresentar informações mais específicas sobre as matérias-primas utilizadas, facilitando a avaliação nutricional e o acompanhamento veterinário.
3. Controle nutricional e padronização
Dietas com maior controle de qualidade tendem a apresentar:
• menor variação entre lotes;
• maior precisão nutricional;
• melhor estabilidade da formulação;
• inclusão consistente de componentes funcionais.
4. Objetivo nutricional da dieta
Cada fórmula possui um propósito técnico específico.
Existem dietas voltadas para:
• filhotes;
• adultos;
• idosos;
• controle de peso;
• suporte dermatológico;
• sensibilidade digestiva;
• suporte articular;
• condições clínicas específicas;
• necessidades nutricionais individualizadas.
Por isso, nem sempre a melhor dieta será a mesma para todos os animais.
A escolha deve considerar idade, porte, condição corporal, rotina, nível de atividade, histórico clínico e necessidades individuais.
Natural não significa automaticamente melhor
Muitos responsáveis associam termos como “natural”, “grain free”, “sem conservantes” ou “ancestral” a maior qualidade nutricional.
Porém, nem toda estratégia alimentar é automaticamente superior apenas pela proposta comercial.
Nos últimos anos, por exemplo, surgiram discussões importantes sobre dietas “grain free” e possíveis associações com alterações cardíacas em cães, especialmente cardiomiopatia dilatada em determinadas situações e populações específicas (FDA, 2023).
Isso reforça a importância de avaliar a alimentação de forma científica, individualizada e baseada em evidências — e não apenas em tendências de marketing.
Dica Heroz
Avalie a alimentação como um conjunto.
Mais importante do que um único ingrediente isolado é observar:
• digestibilidade;
• equilíbrio nutricional;
• qualidade da formulação;
• adequação para a fase da vida;
• controle de qualidade da fabricante;
• objetivo nutricional da dieta;
• resposta individual do animal.
Cada cão e cada gato possuem necessidades específicas.
O médico-veterinário é o profissional mais qualificado para orientar a escolha nutricional mais adequada, considerando saúde, idade, porte, rotina, histórico clínico e necessidades individuais do animal.
Referências
AAFCO. Association of American Feed Control Officials – Dog and Cat Food Nutrient Profiles. 2023.
Case, L. P. et al. Canine and Feline Nutrition. 3ª ed. Elsevier, 2011.
FDA. Investigation into Potential Link between Certain Diets and Canine Dilated Cardiomyopathy. 2023.
FEDIAF. Nutritional Guidelines for Complete and Complementary Pet Food for Cats and Dogs. 2024.
Freeman, L. M. et al. Canine and Feline Nutrition: A Resource for Companion Animal Professionals. Elsevier, 2023.
WSAVA. Global Nutrition Toolkit for Dogs and Cats. 2023.
Renan Sparremberger
Fundador da Heroz – Especialista em comportamento e bem-estar canino
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