Feridas são frequentes em cães e gatos e podem surgir após cortes, escoriações, mordeduras, perfurações, queimaduras ou outros traumas. Embora algumas pareçam pequenas na superfície, a extensão real da lesão pode ser maior do que aparenta.
Por isso, cuidar de uma ferida não significa apenas limpar o local ou tentar fechá-lo. A abordagem veterinária atual considera o estado geral do animal, a profundidade da lesão, o grau de contaminação, a presença de tecidos danificados e o risco de infecção antes de definir o tratamento mais adequado (Winkler, 2024a; Singler, 2025).
Nos primeiros cuidados, controlar o sangramento, proteger a região e evitar produtos que possam prejudicar os tecidos são medidas importantes. Feridas profundas, mordeduras ou lesões acompanhadas de dor intensa, secreção ou alterações no estado geral do animal devem ser avaliadas por um médico-veterinário.

O primeiro cuidado é avaliar o animal, não apenas a ferida
Quando uma ferida ocorre após um trauma, a aparência da pele não deve ser a única preocupação.
Lesões externas podem coexistir com hemorragias, fraturas, alterações respiratórias, choque ou danos internos. Por isso, em traumas importantes, a estabilização e a avaliação geral do paciente vêm antes do tratamento definitivo da ferida (Winkler, 2024a).
Quando há sangramento, a compressão direta da região com gaze ou material limpo pode ajudar a controlar a hemorragia enquanto o animal recebe atendimento.
Feridas profundas, extensas, muito dolorosas ou associadas a sangramento persistente precisam de avaliação veterinária.
Como limpar uma ferida em cães e gatos?
A irrigação é uma das etapas importantes do manejo inicial das feridas porque ajuda a remover sangue, sujeira, pelos, bactérias e outros contaminantes.
A solução fisiológica 0,9% apresenta baixa toxicidade para os tecidos e é amplamente utilizada na limpeza de feridas. Água limpa também pode ser utilizada em determinadas situações de primeiros cuidados quando outra solução apropriada não estiver disponível (Reuss-Lamky, 2022; Winkler, 2024a).
O objetivo não é “esterilizar” a ferida em casa, mas remover contaminantes sem causar novos danos aos tecidos.
Álcool e água oxigenada devem ser usados em feridas?
De forma geral, não.
O uso de álcool diretamente sobre tecidos lesionados não é recomendado. A água oxigenada também não deve ser utilizada rotineiramente na limpeza de feridas, pois pode ser tóxica para células importantes no processo de cicatrização (Reuss-Lamky, 2022).
Isso é importante porque a sensação de ardência, formação de espuma ou aparência de “limpeza” não significa necessariamente que o produto esteja favorecendo a cicatrização.
Antissépticos podem fazer parte do tratamento veterinário em determinadas situações, mas a escolha do produto, concentração e forma de aplicação precisam ser adequadas ao tipo de ferida.
Nem toda ferida deve ser fechada imediatamente
Uma das ideias importantes no manejo atual de feridas é que fechar rapidamente uma lesão nem sempre representa o melhor tratamento.
Feridas limpas, recentes e adequadamente preparadas podem ser fechadas primariamente. Entretanto, feridas muito contaminadas, infectadas, com tecidos desvitalizados ou determinadas mordeduras podem precisar inicialmente de limpeza, exploração, desbridamento e controle da contaminação antes do fechamento (Winkler, 2024a; Winkler, 2024b).
Dependendo das características da lesão, o médico-veterinário pode optar por:
Fechamento primário
A ferida é fechada após avaliação, limpeza e preparação adequadas, quando as condições permitem.
Fechamento tardio
A ferida permanece inicialmente aberta e é fechada posteriormente, após melhora das condições do tecido e controle da contaminação ou infecção.
Cicatrização por segunda intenção
A ferida permanece aberta e cicatriza progressivamente por formação de tecido de granulação, contração e epitelização.
A decisão depende de fatores como profundidade, localização, tempo de evolução, contaminação, infecção, vascularização e quantidade de tecido viável.
Mordeduras merecem atenção especial
Feridas causadas por mordeduras podem parecer pequenas externamente e, ainda assim, esconder danos muito maiores abaixo da pele.
Nos gatos, pequenas perfurações provocadas por mordidas podem evoluir para infecção e formação de abscessos. Nos cães, a força envolvida no trauma pode provocar lesões musculares, vasculares, fraturas e até danos internos, mesmo quando existem apenas pequenas marcas visíveis na pele (Winkler, 2024b).
Por isso, a gravidade de uma mordedura não deve ser avaliada apenas pelo tamanho da abertura externa.
Dependendo do caso, podem ser necessários exploração da região, limpeza, desbridamento, drenagem, analgesia e tratamento antimicrobiano. O uso de antibióticos não deve ser realizado por conta própria e depende da avaliação veterinária e das características da lesão (Singler, 2025; Winkler, 2024b).
5 coisas que não fazer em uma ferida
1. Não aplicar álcool diretamente na lesão
O álcool pode causar irritação e lesão aos tecidos.
2. Não utilizar água oxigenada rotineiramente
Apesar de historicamente utilizada em primeiros socorros, ela pode prejudicar células envolvidas na cicatrização.
3. Não tentar fechar ou suturar a ferida em casa
Uma ferida aparentemente simples pode conter contaminação, tecidos lesionados ou danos mais profundos que precisam ser avaliados antes do fechamento.
4. Não administrar antibióticos por conta própria
Nem toda ferida exige antibióticos, e a escolha do medicamento depende da avaliação clínica, do tipo de lesão e da presença ou risco de infecção.
5. Não permitir que o animal lamba ou traumatize continuamente a região
Lambedura e mordedura repetidas podem aumentar o trauma, favorecer contaminação e dificultar a cicatrização.
O tratamento moderno vai além de simplesmente “fechar” a ferida
O objetivo do manejo de feridas é criar condições favoráveis para a reparação dos tecidos.
Isso pode envolver controle da contaminação, retirada de tecidos desvitalizados, manejo da dor, controle de secreções, manutenção de um ambiente adequado para cicatrização e proteção da região contra novos traumas (Winkler, 2024a; Reuss-Lamky, 2022).
Hoje existem diferentes tipos de curativos e coberturas veterinárias, selecionados conforme as características da lesão.
Entre eles estão curativos de espuma, hidrogéis, alginatos e materiais com agentes antimicrobianos. Algumas feridas complexas também podem se beneficiar de técnicas como terapia por pressão negativa, entre outras abordagens utilizadas na medicina veterinária (Winkler, 2024c; Reuss-Lamky, 2022).
Isso não significa que tecnologias mais sofisticadas sejam necessárias em todas as feridas. A escolha depende da quantidade de secreção, presença de infecção, tecido exposto, localização e estágio da cicatrização.
Curativos também precisam ser individualizados
Uma ferida seca não apresenta as mesmas necessidades de uma ferida muito exsudativa. Da mesma forma, uma mordedura contaminada exige uma abordagem diferente de uma incisão cirúrgica limpa.
Os curativos podem ajudar a:
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proteger contra contaminação;
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absorver secreções;
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manter condições favoráveis à cicatrização;
-
reduzir novos traumas;
-
auxiliar no controle da ferida.
Curativos aplicados de forma inadequada ou excessivamente apertados também podem causar complicações. Por isso, quando houver necessidade de bandagem contínua, é importante seguir a orientação do médico-veterinário (Winkler, 2024c).
O colar elizabetano ou outras formas de proteção podem ser necessários para impedir que o animal lamba, morda ou traumatize a região.
Quando procurar atendimento veterinário?
Feridas pequenas e superficiais podem permitir cuidados iniciais simples até a avaliação do animal. Entretanto, é importante procurar atendimento veterinário diante de:
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mordeduras;
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feridas profundas ou extensas;
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sangramento persistente;
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perfurações;
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exposição de tecidos profundos;
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secreção ou pus;
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odor desagradável;
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aumento de volume;
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dor importante;
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tecidos escurecidos ou aparentemente desvitalizados;
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dificuldade para caminhar;
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apatia ou outras alterações comportamentais;
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traumas importantes, mesmo quando a lesão externa parece pequena.
Mordeduras merecem atenção especial porque a extensão do dano abaixo da pele pode ser significativamente maior do que a aparência externa sugere (Winkler, 2024b).
Em resumo: o que fazer ao perceber uma ferida?
O papel do responsável é realizar os primeiros cuidados com segurança, evitar produtos potencialmente prejudiciais e observar o estado geral do animal.
Em uma situação de ferida:
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mantenha o animal o mais tranquilo possível;
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controle sangramentos com compressão direta quando necessário;
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evite álcool, água oxigenada e medicamentos utilizados por conta própria;
-
impeça que o animal traumatize continuamente a região;
-
procure avaliação veterinária quando houver profundidade, mordedura, dor, contaminação, sangramento persistente ou qualquer dúvida sobre a gravidade.
Uma pequena abertura na pele nem sempre representa uma lesão pequena. A avaliação adequada nas primeiras horas pode ajudar a identificar complicações e definir a melhor estratégia para cicatrização.
Perguntas frequentes sobre feridas em cães e gatos
Posso passar água oxigenada na ferida do meu cão ou gato?
O uso rotineiro de água oxigenada diretamente em feridas não é recomendado, porque ela pode causar dano às células envolvidas no processo de cicatrização.
Posso limpar a ferida com solução fisiológica?
A solução fisiológica 0,9% é uma das opções utilizadas para irrigação e limpeza inicial devido à sua baixa toxicidade para os tecidos.
Toda mordida precisa de atendimento veterinário?
Mordeduras merecem avaliação cuidadosa porque pequenas perfurações externas podem esconder lesões profundas e contaminação significativa.
Toda ferida precisa de antibiótico?
Não. A necessidade de antibiótico depende das características da ferida, presença de infecção, contaminação e avaliação do paciente. Antibióticos não devem ser administrados por conta própria.
Uma ferida deve sempre ser suturada?
Não. Feridas contaminadas, infectadas ou com tecidos desvitalizados podem precisar permanecer abertas inicialmente. A decisão sobre fechamento depende da avaliação veterinária.
Referências
AMERICAN ANIMAL HOSPITAL ASSOCIATION (AAHA). Bite wound treatment refresher. Emily Singler, 25 fev. 2025.
Disponível em: www.aaha.org/trends-magazine/publications/bite-wound-treatment-refresher/
AMERICAN ANIMAL HOSPITAL ASSOCIATION (AAHA). Wound Management for Veterinary Technicians. Heidi Reuss-Lamky, 1 jun. 2022.
Disponível em: www.aaha.org/trends-magazine/june-2022/f1-wound-care/
WINKLER, Kevin P. Initial Wound Management in Small Animals. Merck Veterinary Manual. Revisado em jul. 2023; atualizado em set. 2024.
Disponível em: www.merckvetmanual.com/emergency-medicine-and-critical-care/wound-management-in-small-animals/initial-wound-management-in-small-animals
WINKLER, Kevin P. Management of Specific Wounds in Small Animals. Merck Veterinary Manual. Revisado em jul. 2023; atualizado em set. 2024.
Disponível em: www.merckvetmanual.com/emergency-medicine-and-critical-care/wound-management-in-small-animals/management-of-specific-wounds-in-small-animals
WINKLER, Kevin P. Wound Bandages and Dressings for Small Animals. Merck Veterinary Manual. Revisado em jul. 2023; atualizado em set. 2024.
Disponível em: www.merckvetmanual.com/emergency-medicine-and-critical-care/wound-management-in-small-animals/wound-bandages-and-dressings-for-small-animals
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