A leishmaniose visceral canina é uma doença infecciosa causada principalmente por Leishmania infantum e pode apresentar manifestações muito diferentes entre os cães. Alguns animais desenvolvem alterações evidentes na pele, perda de peso ou alterações nas unhas, enquanto outros podem permanecer infectados sem apresentar sinais clínicos por determinado período.
Essa variedade de manifestações faz com que nenhum sinal isolado seja suficiente para confirmar a doença. A avaliação médico-veterinária, o histórico do animal, sua exposição epidemiológica e os exames complementares são importantes para chegar ao diagnóstico correto (Brasil, 2026; LeishVet, 2025).

Por que a leishmaniose pode apresentar sinais tão diferentes?
Após a infecção, a resposta do organismo à Leishmania pode variar consideravelmente entre os indivíduos. Há cães que permanecem clinicamente saudáveis, enquanto outros desenvolvem doença com comprometimento de diferentes órgãos e sistemas.
Por isso, a leishmaniose canina é considerada uma doença de apresentação clínica complexa. Alterações dermatológicas, linfonodais, oculares, hematológicas e renais podem fazer parte do quadro, e a intensidade dessas manifestações também varia conforme a evolução da doença (Solano-Gallego et al., 2011; LeishVet, 2025).
Quais sinais podem aparecer em cães com leishmaniose?
Os sinais clínicos não são exclusivos da leishmaniose, mas algumas alterações podem justificar uma investigação médico-veterinária, especialmente quando o cão vive ou esteve em regiões onde existe transmissão da doença.
Entre as manifestações descritas estão:
- perda progressiva de peso e de massa muscular; diminuição do apetite; aumento dos linfonodos; descamação, perda de pelos, feridas ou outras alterações de pele; crescimento exagerado ou alterações das unhas, conhecido como onicogrifose; alterações nos olhos; apatia; claudicação; vômitos ou diarreia; aumento da ingestão de água e da produção de urina; além de alterações laboratoriais e renais que podem surgir conforme a evolução da doença (Brasil, 2026; LeishVet, 2025).
Alterações de pele e unhas
As manifestações dermatológicas são frequentes na leishmaniose canina. Podem ocorrer descamação, perda de pelos, dermatites, nódulos e lesões ulceradas, além do crescimento anormal das unhas.
Entretanto, alterações semelhantes podem ocorrer em diversas doenças dermatológicas, infecciosas, imunomediadas e endócrinas. Por isso, observar uma lesão de pele ou uma unha alterada não permite concluir que o cão tem leishmaniose.
Alterações oculares
A doença também pode estar associada a alterações nos olhos e tecidos relacionados. Vermelhidão, secreção, desconforto ocular ou outras mudanças devem ser avaliadas pelo médico-veterinário, principalmente quando acompanhadas de outros sinais sistêmicos.
Alterações renais merecem atenção
O comprometimento renal tem importância na avaliação e no acompanhamento de cães com leishmaniose. A classificação clínica utilizada pelo LeishVet considera alterações renais e proteinúria entre os fatores relevantes para determinar a gravidade da doença e o prognóstico do paciente (LeishVet, 2025).
Por esse motivo, a investigação de um cão com suspeita de leishmaniose pode envolver não apenas testes específicos para Leishmania, mas também exames que auxiliem na avaliação geral do organismo e da função renal.
Um cão pode ter leishmaniose sem apresentar sintomas?
Sim. Infecção e doença clínica não são a mesma coisa.
Um cão pode estar infectado por Leishmania infantum e permanecer clinicamente saudável durante determinado período. Essa característica é uma das razões pelas quais o histórico de exposição e a situação epidemiológica da região têm importância na avaliação veterinária (Brasil, 2026; Solano-Gallego et al., 2011).
Por isso, a ausência de sintomas não deve ser interpretada isoladamente como garantia de ausência da infecção em animais com exposição relevante.
Como o médico-veterinário investiga a suspeita?
O diagnóstico da leishmaniose canina é construído a partir de diferentes informações. O médico-veterinário considera os sinais clínicos e alterações laboratoriais, o local onde o animal vive, viagens ou permanência em áreas de transmissão e os resultados dos exames específicos.
Podem ser utilizadas técnicas sorológicas, moleculares e métodos que buscam demonstrar diretamente a presença do parasito. A escolha e a interpretação dos exames dependem do contexto de cada paciente. O LeishVet recomenda que o diagnóstico de doença clínica associe alterações compatíveis com a demonstração da infecção por L. infantum (LeishVet, 2025).
Isso também significa que um resultado laboratorial precisa ser interpretado em conjunto com o quadro do animal, e não de maneira isolada.
Quando procurar um médico-veterinário?
Perda de peso sem explicação, alterações persistentes de pele, feridas que não cicatrizam, crescimento anormal das unhas, aumento dos linfonodos, alterações oculares, redução do apetite ou outras mudanças persistentes na saúde do cão justificam avaliação profissional.
A investigação ganha ainda mais relevância quando o animal vive, viveu ou viajou para uma região com ocorrência de leishmaniose.
O reconhecimento precoce de alterações permite investigar suas possíveis causas e, quando a leishmaniose é confirmada, classificar adequadamente o paciente e estabelecer o acompanhamento necessário.
E a prevenção?
A principal transmissão da leishmaniose visceral ocorre por meio de flebotomíneos infectados. Portanto, reduzir o contato do cão com o vetor continua sendo uma das medidas mais importantes de prevenção.
Produtos veterinários com eficácia repelente ou inseticida comprovada contra flebotomíneos, utilizados conforme sua indicação, podem fazer parte dessa proteção. O manejo do ambiente e a redução da exposição ao vetor também são medidas relevantes (Brasil, 2026; LeishVet, 2025).
Atualmente, o Ministério da Saúde informa que o imunizante antileishmaniose para cães que era comercializado no Brasil deixou de estar disponível, motivo pelo qual recomendações sobre vacinação precisam sempre considerar a situação regulatória e comercial vigente.
Para entender em detalhes como ocorre a transmissão, como vive o mosquito-palha e quais medidas podem ajudar na prevenção, o responsável pode consultar também o conteúdo completo da Heroz sobre leishmaniose visceral e prevenção.
Observar é importante, mas diagnosticar exige investigação
A leishmaniose canina pode se apresentar de maneiras muito diferentes. Um cão pode demonstrar várias alterações, apenas um sinal discreto ou até permanecer clinicamente saudável apesar da infecção.
Por isso, reconhecer mudanças no organismo é importante, mas o diagnóstico não deve ser feito apenas pela aparência ou pelos sintomas.
A avaliação médico-veterinária e os exames indicados para cada paciente permitem compreender melhor o quadro e definir os próximos cuidados de maneira responsável.
Dra. Vitória Elis
Médica Veterinária – CRMV-RS 23116
Renan Sparremberger – Fundador da Heroz
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Manual de vigilância e controle da leishmaniose visceral. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 137 p. ISBN 978-85-334-2913-0. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-e-manuais/2026/manual-de-vigilancia-e-controle-da-leishmaniose-visceral.pdf
LEISHVET. LeishVet Fact Sheet: Practical Management of Canine Leishmaniosis. 2025. Disponível em: https://www.leishvet.org/leishvet-factsheets/
SOLANO-GALLEGO, L. et al. LeishVet guidelines for the practical management of canine leishmaniosis. Parasites & Vectors, v. 4, art. 86, 2011. DOI: 10.1186/1756-3305-4-86. Disponível em: https://doi.org/10.1186/1756-3305-4-86
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