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A alimentação de cães e gatos também faz parte de uma discussão cada vez maior sobre sustentabilidade. Além de fornecer os nutrientes necessários para cada espécie e fase da vida, a indústria de alimentos para animais busca maneiras de utilizar melhor as matérias-primas, reduzir desperdícios e diminuir os impactos associados à produção.

Entre as estratégias estudadas estão novas fontes de proteína, ingredientes obtidos por fermentação, insetos, vegetais e proteínas produzidas por agricultura celular. Outra frente envolve o aproveitamento tecnológico de coprodutos da própria cadeia de alimentos, transformando materiais nutritivos que já existem em ingredientes com maior valor funcional. (Carrillo-Huerta et al., 2025; Bou et al., 2025).

Essa segunda abordagem ganhou destaque em uma matéria publicada na edição de novembro de 2025 da PETS International, que apresentou uma proteína funcional desenvolvida para alimentos úmidos. O exemplo ajuda a mostrar como ciência de alimentos e tecnologia podem contribuir para uma produção mais eficiente — mas também evidencia por que alegações de sustentabilidade precisam ser avaliadas com cuidado.

 

 

O que são proteínas funcionais na alimentação pet?

Proteína não é importante apenas pela quantidade presente em um alimento. Sua origem, composição de aminoácidos, digestibilidade, processamento e função tecnológica também são relevantes.

No caso apresentado pela PETS International, o ingrediente denominado Protein Fiber, comercialmente conhecido como QExtend, é produzido a partir de coprodutos de plasma de suínos ou bovinos. O processamento cria uma estrutura proteica capaz de contribuir para características importantes de alimentos úmidos, como retenção de água, textura, homogeneidade e aparência. (Prevo, 2025).

Esse conceito é diferente do de proteínas alternativas como proteínas de insetos, fungos, vegetais ou aquelas produzidas por fermentação de precisão e agricultura celular. Estas constituem outro campo de pesquisa que também vem crescendo na nutrição animal. (Carrillo-Huerta et al., 2025).

Por que aproveitar coprodutos pode ser interessante?

A produção de alimentos gera diferentes coprodutos que podem conservar proteínas, gorduras, minerais e outras substâncias aproveitáveis. Tecnologias de processamento podem transformá-los em ingredientes destinados à alimentação animal e a outras aplicações.

Uma revisão publicada em 2025 destacou que a valorização de coprodutos da indústria de carnes pode aumentar o aproveitamento das matérias-primas e gerar ingredientes com diferentes propriedades nutricionais e tecnológicas. A indústria de pet food já representa uma aplicação importante para proteínas animais processadas. (Bou et al., 2025).

No Brasil, uma análise de ciclo de vida de um alimento seco extrusado para cães também identificou a seleção das matérias-primas como um dos principais determinantes do impacto ambiental do produto. Na formulação estudada, o uso de coprodutos animais e vegetais contribuiu para reduzir determinados impactos ambientais. (Costa et al., 2024).

Isso não significa, entretanto, que todo coproduto seja automaticamente mais sustentável. O resultado depende da origem do ingrediente, processamento, transporte, uso alternativo daquela matéria-prima e metodologia empregada na análise do ciclo de vida. Estudos recentes mostram que a atribuição do impacto ambiental aos coprodutos ainda é uma questão metodológica importante.

 

O que o exemplo apresentado pela PETS International mostrou?

Segundo o conteúdo patrocinado publicado pela revista, testes conduzidos com a proteína funcional apresentada indicaram que ela poderia substituir aproximadamente 20% a 25% da carne fresca em determinados alimentos úmidos do tipo loaf, mantendo características como textura, dureza e estrutura do produto.

A publicação também relata testes de palatabilidade nos quais gatos aceitaram formulações contendo a proteína funcional de maneira semelhante às formulações com 100% de carne. (Prevo, 2025).

É importante interpretar esses dados dentro do contexto correto: trata-se de informação fornecida em conteúdo patrocinado pelo fabricante do ingrediente, e não de um ensaio clínico independente publicado em periódico científico revisado por pares.

Portanto, os resultados são interessantes como demonstração de uma tecnologia em desenvolvimento, mas não devem ser generalizados automaticamente para qualquer alimento, ingrediente, cão ou gato.

 

Sustentabilidade pode existir sem comprometer a nutrição?

Esse é justamente um dos principais desafios da inovação na alimentação animal.

Uma fonte proteica só é útil se a formulação completa fornecer os nutrientes necessários ao animal. No caso dos cães, por exemplo, proteínas alternativas precisam ser avaliadas quanto ao perfil de aminoácidos, digestibilidade, segurança e palatabilidade. A literatura recente destaca que diferentes fontes apresentam características nutricionais próprias e precisam ser corretamente combinadas e formuladas. (Carrillo-Huerta et al., 2025).

Pesquisas também vêm avaliando proteínas obtidas por fermentação e proteínas de insetos. Um estudo piloto com cães encontrou boa aceitação de uma proteína produzida por fermentação em inclusões de 5% e 10%, enquanto pesquisas com hidrolisados de insetos continuam investigando digestibilidade, palatabilidade e efeitos nutricionais. Esses resultados são promissores, mas fazem parte de um campo ainda em desenvolvimento.

Portanto, “mais sustentável” não pode significar simplesmente substituir carne por qualquer outra fonte de proteína. O alimento final precisa continuar atendendo às necessidades nutricionais da espécie e da fase de vida para a qual foi formulado.

 

O que isso pode representar para os responsáveis por cães e gatos?

Para os responsáveis, essas tecnologias podem significar uma oferta cada vez maior de alimentos formulados com ingredientes capazes de aproveitar melhor os recursos disponíveis e, em determinadas situações, reduzir impactos ambientais.

No futuro, pode se tornar mais comum encontrar produtos que busquem simultaneamente:

  • adequação nutricional;
  • boa digestibilidade e segurança;
  • palatabilidade e aceitação;
  • características adequadas de textura e conservação;
  • uso mais eficiente de matérias-primas;
  • menor impacto ambiental demonstrado por avaliações consistentes.

Mas a sustentabilidade deve ser analisada junto da qualidade nutricional, e não no lugar dela.

A escolha da alimentação deve considerar a espécie, idade, porte, nível de atividade, condição corporal e eventuais necessidades individuais. Quando há doenças, necessidades nutricionais específicas ou dúvidas sobre determinada formulação, é importante buscar orientação de um médico-veterinário.

 

Proteínas alternativas são o mesmo que coprodutos animais?

Não.

O termo proteínas alternativas costuma incluir fontes como proteínas vegetais, insetos, fungos, biomassa microbiana, fermentação de precisão e produtos derivados de agricultura celular. (Carrillo-Huerta et al., 2025).

Já o exemplo abordado pela PETS International utiliza um coproduto de origem animal transformado em proteína funcional. A inovação está principalmente no melhor aproveitamento e na modificação tecnológica daquela matéria-prima.

As duas estratégias podem fazer parte de uma evolução mais ampla da indústria de alimentos para animais, mas são conceitos diferentes.

 

Sustentabilidade na alimentação pet exige olhar para todo o ciclo

A composição do alimento exerce grande influência sobre seu impacto ambiental, mas não é o único fator. Produção das matérias-primas, processamento, transporte, embalagem, distribuição e destino dos resíduos também podem contribuir.

Um estudo brasileiro de análise de ciclo de vida encontrou que a etapa relacionada às matérias-primas foi responsável pela maior parcela dos impactos avaliados no alimento para cães estudado, reforçando a importância da formulação na busca por produtos ambientalmente mais eficientes. (Costa et al., 2024).

Por isso, afirmações como “proteína sustentável” ou “menor pegada de carbono” são mais robustas quando acompanhadas por análises de ciclo de vida e metodologias transparentes, em vez de serem inferidas apenas pela origem do ingrediente.

 

A reflexão da Heroz

Cuidar dos nossos animais também significa pensar no mundo em que eles vivem.

A inovação na alimentação pet não precisa representar perda de qualidade. Quando ciência, nutrição e tecnologia caminham juntas, é possível buscar formas mais eficientes de produzir alimentos, aproveitar melhor os recursos disponíveis e desenvolver novas fontes de nutrientes.

Ao mesmo tempo, sustentabilidade deve caminhar ao lado da segurança e da adequação nutricional. Nem toda novidade será automaticamente melhor, e cada inovação precisa ser avaliada com evidências.

O futuro da alimentação de cães e gatos provavelmente será construído não a partir de uma única proteína ou tecnologia, mas da combinação entre nutrição adequada, ciência, eficiência produtiva e responsabilidade ambiental.

Porque pequenas escolhas feitas hoje também ajudam a construir o mundo onde nossos heróis viverão amanhã.

Por amor aos nossos heróis. 🐾

 

Referências

BOU, R.; PINOTTI, L.; ZEUGOLIS, D.; WATIGNY, A.; ÁLVAREZ, C. Advancing the valorisation of meat co-products in food, pet food, and biomedicine applications. Waste Management, v. 204, 114948, 2025. DOI: 10.1016/j.wasman.2025.114948. Acessar artigo PubMed

CARRILLO-HUERTA, Y. D.; GUTIÉRREZ-CHÁVEZ, A. J.; PÉREZ-ZAVALA, M. L.; CASADOS-VÁZQUEZ, L. E.; BARBOZA-CORONA, J. E. Alternative proteins: an innovative approach to dog food production. Frontiers in Animal Science, v. 6, 1701677, 2025. DOI: 10.3389/fanim.2025.1701677. Acessar artigo Frontiers

COSTA, J. L. G.; BÁNKUTI, F. I.; OIKO, O. T.; MONTI, M.; LOUREIRO, B. A.; HENRÍQUEZ, L. B. F.; FLORINDO, T. J.; VASCONCELLOS, R. S. Life cycle assessment of the production of an extruded dog food in Brazil. Journal of Cleaner Production, v. 458, 142505, 2024. DOI: 10.1016/j.jclepro.2024.142505. Acessar artigo ScienceDirect

PREVO, E. Smarter proteins for a sustainable wet pet food future. PETS International / GlobalPETS, 28 nov. 2025. Conteúdo patrocinado por Darling Ingredients Inc. Acessar matéria original Indústria Global de Animais de Estimação

 

Renan Sparremberger

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