Skip to Content

Quem convive com um cão ou um gato sabe que oferecer um petisco raramente parece ser apenas uma questão de alimentação. Ele pode surgir depois de um comportamento que queremos recompensar, durante um momento de interação ou simplesmente como uma maneira de demonstrar carinho.

Essa percepção aparece também em uma pesquisa internacional realizada pela Loop/Yummypets em julho de 2025 com 2.486 responsáveis por cães e gatos no Brasil, Estados Unidos, Canadá, México, França e Reino Unido. Entre os participantes, 59% afirmaram oferecer petiscos principalmente para deixar seus animais felizes. A pesquisa também encontrou diferenças interessantes entre cães e gatos: 65% dos responsáveis por cães relacionaram o petisco principalmente à recompensa, enquanto 65% dos responsáveis por gatos o associaram a uma demonstração de afeto (Loop/Yummypets, 2025; GlobalPETS, 2025).

Isso não significa que cães e gatos interpretem necessariamente o petisco como uma “linguagem de amor” da mesma maneira que um ser humano. Mas mostra como a alimentação pode fazer parte da relação construída entre pessoas e animais — e por que vale a pena entender melhor esse hábito.

 

Diversos petiscos para cães e gatos dispostos sobre uma mesa, com um cão e um gato observando os alimentos.

 

Por que oferecemos petiscos aos nossos pets?

O significado do petisco pode mudar conforme o contexto.

Para cães, alimentos altamente valorizados podem funcionar como reforçadores durante o aprendizado. Métodos baseados em recompensa são recomendados pela American Veterinary Society of Animal Behavior para o treinamento e a modificação comportamental de cães, e alimentos podem ser utilizados como uma das formas de reforçar comportamentos desejados (AVSAB, 2021).

Isso significa que o petisco pode ter uma função muito mais interessante do que simplesmente “agradar”: ele pode participar do processo de ensinar habilidades, criar associações positivas e facilitar determinadas experiências.

Nos gatos, o alimento também pode estar associado a momentos positivos de interação e enriquecimento. A própria World Small Animal Veterinary Association destaca que petiscos podem ser utilizados como recompensa, proporcionar estimulação e contribuir para o vínculo com o animal, desde que oferecidos de forma adequada (WSAVA, 2024).

O mais importante é compreender que o petisco é uma ferramenta dentro da rotina — não a única maneira de demonstrar carinho. Brincadeiras, atenção, oportunidades de exploração, descanso adequado e interações respeitosas também fazem parte da construção desse vínculo.

 

Cães e gatos preferem os mesmos tipos de petiscos?

Não necessariamente.

A pesquisa da Loop/Yummypets mostra diferenças interessantes nas escolhas relatadas pelos responsáveis. Entre os cães, os petiscos crocantes foram mencionados por 65% dos participantes, seguidos pelos produtos voltados à saúde bucal, com 64%, e pelos petiscos macios ou mastigáveis, com 60%.

Entre os gatos, os petiscos de consistência cremosa ou pastosa lideraram, com 64%, seguidos pelos crocantes, com 62%, e pelos macios ou mastigáveis, com 52% (GlobalPETS, 2025).

Esses números representam tendências de consumo, e não regras biológicas universais. Cada animal possui preferências próprias, que podem variar conforme experiências anteriores, textura, aroma, temperatura, composição e contexto em que o alimento é oferecido.

Por isso, observar a resposta individual do animal continua sendo importante.

 

O que os responsáveis consideram ao escolher um petisco?

Preço, benefícios relacionados à saúde e presença de ingredientes considerados naturais apareceram entre os principais fatores de decisão na pesquisa.

O preço foi mencionado por 45% dos participantes, seguido por benefícios específicos à saúde, com 42%, e ingredientes naturais, com 41%. Entre os integrantes da geração Z, o preço teve ainda mais peso, sendo apontado por 52% dos entrevistados dessa faixa etária (GlobalPETS, 2025).

Há, porém, uma diferença importante entre aquilo que influencia uma decisão de compra e aquilo que determina a qualidade nutricional de um alimento.

Termos como “natural”, por exemplo, podem ser atraentes comercialmente, mas não devem ser interpretados isoladamente como garantia de que determinado produto seja nutricionalmente superior. A WSAVA ressalta que apenas observar a lista de ingredientes não permite avaliar adequadamente a qualidade geral de um alimento. Informações sobre formulação, adequação nutricional, controle de qualidade e fabricante também são relevantes (WSAVA, 2024).

Da mesma forma, um petisco anunciado como “funcional” deve ser analisado de acordo com aquilo que realmente oferece e com as evidências relacionadas ao benefício proposto.

 

Petiscos podem ser usados como recompensa no treinamento?

Sim. Para muitos cães, alimentos de alta preferência funcionam como reforçadores eficientes.

O princípio é simples: quando um comportamento é seguido por algo que o animal valoriza, aumenta a possibilidade de aquele comportamento ocorrer novamente. O petisco pode, portanto, ser utilizado para ensinar desde comportamentos cotidianos até exercícios mais específicos.

A AVSAB recomenda métodos baseados em recompensa para o treinamento de cães e destaca vantagens relacionadas tanto ao aprendizado quanto ao bem-estar e à relação entre o animal e as pessoas (AVSAB, 2021).

Isso não significa que toda recompensa precise ser comida. Dependendo do animal, brincadeiras, atenção, acesso a um ambiente, brinquedos ou outras atividades valorizadas também podem funcionar como reforçadores.

 

Quanto petisco um cão ou gato pode comer por dia?

Aqui está um dos pontos mais importantes.

As recomendações nutricionais da AAHA e da WSAVA orientam que os petiscos e outros alimentos adicionais representem, em geral, no máximo 10% da ingestão calórica diária, mantendo a maior parte da alimentação proveniente de uma dieta completa e balanceada (Cline et al., 2021; WSAVA, 2024).

Esse percentual é uma referência prática, e não significa que todos os animais devam necessariamente consumir 10% das calorias em petiscos.

Um estudo brasileiro publicado em 2025 avaliou a repercussão nutricional dessa recomendação em alimentos comerciais para cães e gatos. Os resultados reforçaram que a quantidade e o tipo de petisco precisam ser considerados dentro da dieta como um todo, especialmente em alguns gatos menos ativos, nos quais substituir parte do alimento completo por determinados petiscos poderia comprometer a ingestão de nutrientes (Príncipe et al., 2025).

O que entra nessa conta?

Não são apenas os produtos vendidos com a palavra “petisco” na embalagem.

Alimentos oferecidos durante treinamento, pequenas porções da comida da família, snacks, alguns produtos mastigáveis e outros alimentos extras também fornecem calorias e precisam fazer parte da avaliação da ingestão diária.

Em animais que precisam controlar o peso, apresentam alguma doença, possuem sensibilidade alimentar ou utilizam dieta veterinária específica, a escolha deve ser ainda mais cuidadosa. A orientação do médico-veterinário pode ajudar a determinar quais opções e quantidades são adequadas para aquele indivíduo.

 

Petisco demais pode transformar carinho em excesso de calorias

É fácil subestimar pequenas quantidades oferecidas diversas vezes ao longo do dia.

Um petisco depois do passeio, outro enquanto a família cozinha, mais alguns durante o treinamento e pequenas porções oferecidas por diferentes pessoas da casa podem representar uma quantidade considerável de energia ao final do dia.

O excesso frequente de calorias é um dos fatores que podem favorecer ganho de peso. As diretrizes de nutrição e controle de peso da AAHA consideram o excesso de petiscos — acima de 10% da ingestão calórica diária — um fator nutricional que merece atenção (Cline et al., 2021).

Por isso, carinho e alimentação não precisam ser sinônimos o tempo inteiro. Muitas vezes, uma brincadeira, um passeio, alguns minutos de atenção ou uma atividade de enriquecimento podem oferecer uma experiência positiva sem acrescentar calorias à rotina.

 

Cultura e rotina também influenciam a forma como oferecemos petiscos

Os hábitos encontrados na pesquisa também variaram entre regiões.

Na América do Norte, aproximadamente sete em cada dez participantes afirmaram oferecer petiscos diariamente. Na Europa, esse percentual foi de 59%, enquanto na América Latina ficou em 42%.

Também houve diferenças nas motivações relatadas. Na Europa, deixar o animal feliz apareceu com maior destaque; na América do Norte, recompensa e demonstração de afeto tiveram maior participação; e, na América Latina, proporcionar felicidade ao pet também apareceu entre os principais motivos (GlobalPETS, 2025).

Isso mostra que oferecer alimento é também um comportamento humano influenciado por hábitos familiares, mercado, cultura e pela maneira como cada pessoa constrói sua relação com o animal.

Essas diferenças culturais, entretanto, não modificam as necessidades nutricionais individuais nem as recomendações de segurança.

 

Afinal, petisco pode ser uma demonstração de amor?

Pode ser uma das formas pelas quais o responsável expressa carinho e cria momentos positivos com o animal.

Mas talvez o cuidado esteja justamente em perceber que demonstrar amor não significa oferecer cada vez mais.

Escolher um produto apropriado, considerar as calorias, respeitar as necessidades do animal e utilizar o alimento com intenção tornam o gesto mais consciente. Em alguns momentos, o melhor “petisco” pode até ser outra coisa: uma brincadeira, um passeio, uma oportunidade de farejar, um momento tranquilo ou simplesmente estar perto.

O petisco pode participar do vínculo. O cuidado está em fazer com que esse pequeno gesto continue contribuindo para a saúde e o bem-estar de quem o recebe.

Por amor aos nossos heróis.

 

Autor: Renan Sparremberger

 

Referências

AMERICAN VETERINARY SOCIETY OF ANIMAL BEHAVIOR — AVSAB. Humane Dog Training Position Statement. 2021.

CLINE, M. G.; BURNS, K. M.; COE, J. B.; DOWNING, R.; DURZI, T.; MURPHY, M.; PARKER, V. 2021 AAHA Nutrition and Weight Management Guidelines for Dogs and Cats. Journal of the American Animal Hospital Association, v. 57, n. 4, p. 153–178, 2021. DOI: 10.5326/JAAHA-MS-7232.

DOMINGUEZ, D. Crunchy, soft or lickable: pet treat preferences. GlobalPETS, 9 dez. 2025. Dados da pesquisa Loop/Yummypets realizada em julho de 2025 com 2.486 responsáveis por cães e gatos em seis países.

LOOP; YUMMYPETS. Treats, dietary supplements & toppers. Consumer Report. Pesquisa realizada em julho de 2025 com 2.486 responsáveis por cães e gatos no Brasil, Canadá, França, México, Reino Unido e Estados Unidos. 2025.

PRÍNCIPE, L. A.; MARCHI, P. H.; AMARAL, A. R.; PEDRINELLI, V.; ZAFALON, R. V. A.; ROMANO, F. S.; BALIEIRO, J. C. C.; VENDRAMINI, T. H. A. Assessment of the Nutritional Impact of the 10% Snack Recommendation in Pet Diets. Veterinary Sciences, v. 12, n. 3, art. 282, 2025. DOI: 10.3390/vetsci12030282.

WORLD SMALL ANIMAL VETERINARY ASSOCIATION — WSAVA. Feeding treats to your cat. Nutrition Committee, 2024.

WORLD SMALL ANIMAL VETERINARY ASSOCIATION — WSAVA. Feeding treats to your dog. Nutrition Committee, 2024.

RECEBA AS NOVIDADES DA HEROZ

Fique por dentro das nossas dicas, conteúdos e novidades sobre saúde e bem-estar canino. Digite seu e-mail e entre para a nossa matilha de cuidadores apaixonados!