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Mastigar faz parte do comportamento natural dos cães e pode contribuir para enriquecimento ambiental, entretenimento e bem-estar. Porém, quando um brinquedo, osso ou mastigável é duro demais, o problema não se limita à possibilidade de “quebrar um dente”.

Objetos excessivamente rígidos podem causar fraturas, microdanos, desgaste progressivo do esmalte e da dentina, exposição de estruturas sensíveis, inflamação da polpa, necrose pulpar e infecções ao redor da raiz. Em alguns casos, o dente pode sofrer um trauma importante e até perder sua vitalidade sem apresentar uma grande fratura visível.

As diretrizes mais recentes da World Small Animal Veterinary Association (WSAVA) alertam para o risco associado a mastigáveis muito duros, incluindo chifres, cascos e ossos de nylon rígido, e recomendam avaliar a dureza antes de oferecê-los ao animal (Niemiec et al., 2026).

 

Golden Retriever mastigando um brinquedo rígido em formato de osso, com outros brinquedos mais macios ao lado, ilustrando os riscos de objetos muito duros para a saúde dentária dos cães.

 

O problema não é apenas quebrar um dente

Uma fratura dentária é uma das consequências mais conhecidas da mastigação de materiais rígidos, mas não é a única.

O dente é formado externamente por esmalte e dentina, enquanto sua região interna contém a polpa, formada por tecido vivo, vasos sanguíneos e nervos. Uma carga mecânica muito intensa pode afetar diferentes níveis dessa estrutura.

A WSAVA diferencia vários tipos de trauma, desde pequenas alterações do esmalte até fraturas envolvendo esmalte, dentina, raiz e exposição direta da polpa. Além disso, existe outra situação particularmente importante: um trauma concussivo pode lesionar a polpa mesmo sem quebrar externamente o dente (Niemiec et al., 2026; Mulherin, 2024).

Ou seja: um dente aparentemente inteiro não é necessariamente um dente saudável após repetidos impactos ou uma mordida especialmente forte contra um objeto muito rígido.

 

Um dente pode “morrer” sem quebrar?

Sim.

Uma força traumática pode provocar hemorragia dentro da polpa. Como esse tecido está confinado dentro da estrutura rígida do dente, um trauma suficientemente intenso pode resultar em inflamação irreversível da polpa, chamada pulpite irreversível, seguida de necrose pulpar, quando o tecido interno deixa de ser vital.

O Merck Veterinary Manual destaca que trauma concussivo pode comprometer a polpa além de sua capacidade de recuperação, mesmo na ausência de perda evidente da coroa dentária (Mulherin, 2024).

É por isso que observar somente se o dente “quebrou ou não” pode não ser suficiente.

 

Dente escuro, cinza ou arroxeado merece atenção

Uma mudança de cor de um dente pode ser um sinal importante de trauma.

Após uma hemorragia pulpar, produtos derivados do sangue podem penetrar nos túbulos da dentina e produzir uma coloração intrínseca do dente. Ele pode ficar rosado, arroxeado, acinzentado, amarronzado, esverdeado ou simplesmente assumir uma aparência mais opaca e escura.

Em estudo prospectivo envolvendo 102 dentes intrinsecamente pigmentados de 69 cães, 87,6% dos dentes avaliados histologicamente eram não vitais. Além disso, 57% apresentavam evidências radiográficas de doença endodôntica (Feigin et al., 2022). 

Portanto, um dente que anteriormente apresentava determinada coloração e passa a ficar nitidamente mais escuro deve ser examinado por um médico-veterinário.

Todo ponto preto no molar significa dente morto?

Não.

É importante não confundir diferentes alterações.

Uma mudança de cor que parece vir de dentro de todo o dente pode ser compatível com pigmentação intrínseca relacionada a trauma pulpar. Já uma área preta localizada na superfície pode representar cálculo, pigmentação externa, desgaste, exposição de estruturas internas ou até uma cárie.

As cáries verdadeiras existem em cães, mas são incomuns. Quando ocorrem, apresentam predileção pelas superfícies mastigatórias dos molares e podem formar uma cavidade marrom a preta (Mulherin, 2024). 

Por isso, alteração de cor não deve ser diagnosticada apenas pela aparência em casa.

 

Brinquedos também podem desgastar os dentes progressivamente

Nem todo dano acontece de uma vez.

A repetição de movimentos de mastigação contra determinados materiais pode remover progressivamente esmalte e dentina. Esse desgaste provocado pelo contato com um objeto externo é chamado de abrasão dentária.

A nova diretriz da WSAVA cita gaiolas metálicas, gravetos, bolas e ossos entre os objetos capazes de produzir abrasão. Quando o desgaste ocorre lentamente, o organismo pode produzir dentina terciária como mecanismo de proteção. Entretanto, quando a perda de tecido dentário ocorre rapidamente, pode haver exposição da polpa. O desgaste também pode enfraquecer estruturalmente o dente e aumentar posteriormente a possibilidade de fratura (Niemiec et al., 2026).

Um estudo publicado em 2026 também destaca que abrasão e atrição são formas de trauma repetitivo capazes de produzir sensibilidade, inflamação pulpar e, em determinadas circunstâncias, exposição da polpa (Han et al., 2026).

Isso significa que o problema não é somente o brinquedo que provoca uma grande fratura de uma vez. Um brinquedo utilizado repetidamente também pode desgastar o dente ao longo do tempo.

 

O que acontece quando a dentina fica exposta?

Abaixo do esmalte está a dentina, que contém milhares de túbulos microscópicos que se comunicam em direção à polpa.

Quando esmalte e dentina são perdidos por fratura ou desgaste, o animal pode apresentar sensibilidade. Além disso, esses túbulos representam uma possível rota para produtos bacterianos e, em determinadas condições, para comprometimento endodôntico.

Assim, mesmo uma chamada fratura não complicada, na qual a polpa não está visualmente exposta, não deve ser automaticamente considerada irrelevante.

A literatura veterinária mostra que alterações endodônticas podem existir mesmo em alguns dentes aparentemente sem exposição pulpar.

 

E aqueles “buracos” que aparecem no dente?

Aqui existe uma distinção importante.

Um brinquedo duro não costuma produzir uma “cárie” diretamente. Entretanto, ele pode quebrar ou desgastar a estrutura dentária e deixar uma depressão, fissura, área de dentina exposta ou até uma comunicação com a câmara pulpar.

Quando existe exposição direta da polpa, inicialmente pode ser observado um ponto avermelhado. Com a necrose do tecido, essa região pode assumir a aparência de um pequeno orifício preto no centro da área danificada (Mulherin, 2024). Merck Veterinary Manual

Nessa situação, a preocupação principal não é simplesmente “entrar comida dentro do buraco”. O problema maior é que a barreira protetora do dente foi perdida, permitindo contaminação bacteriana e inflamação ou infecção do sistema endodôntico.

 

De uma lesão dentária pode surgir uma infecção na raiz

Quando a polpa sofre dano irreversível e se torna necrótica, bactérias e mediadores inflamatórios podem atingir os tecidos ao redor da extremidade da raiz.

Podem surgir lesões periapicais, granulomas, cistos ou abscessos. Uma fratura complicada não tratada pode, por exemplo, evoluir para um abscesso periapical (Mulherin, 2024). 

Nos dentes superiores posteriores, principalmente no quarto pré-molar maxilar, uma infecção de origem dentária pode produzir inchaço ou uma fístula próxima à região abaixo do olho. Isso às vezes leva o responsável a imaginar inicialmente um problema dermatológico ou ocular, quando a origem está no dente.

Essa é uma consequência bastante diferente de afirmar que o brinquedo “machucou o olho”: o problema ocular ou periocular pode surgir secundariamente a uma infecção dentária, não necessariamente pelo contato mecânico do brinquedo com o olho.

 

O cão pode continuar comendo mesmo sentindo dor?

Sim.

Uma das dificuldades da odontologia veterinária é que muitos cães não demonstram claramente dor oral.

Eles podem continuar comendo, mas passar a mastigar somente de um lado, engolir a comida mais rapidamente, rejeitar determinados brinquedos ou alimentos duros, deixar alimentos caírem da boca ou apresentar mudanças discretas de comportamento.

Doença endodôntica também pode alternar períodos de dor com fases aparentemente silenciosas. A ausência de vocalização ou a manutenção do apetite não excluem doença dentária relevante (Mulherin, 2024).

 

Quais dentes costumam sofrer mais com objetos muito duros?

Os grandes dentes utilizados para cortar e triturar alimentos recebem forças significativas durante a mastigação.

O quarto pré-molar superior, conhecido como um dos dentes carniceiros, é particularmente importante. Ele pode sofrer a chamada “slab fracture”, na qual uma porção lateral do dente se separa durante a mordida sobre um objeto rígido.

Caninos e primeiros molares inferiores também estão entre os dentes frequentemente envolvidos em traumas dentários.

 

Ossos, chifres, cascos e nylon muito rígido merecem atenção

As diretrizes atuais da WSAVA mencionam especificamente o risco de fraturas decorrentes de mastigáveis muito duros, como chifres, cascos e ossos de nylon, além dos riscos relacionados a ossos e outros objetos rígidos (Niemiec et al., 2026). 

É importante reconhecer que existem estudos experimentais de curta duração nos quais determinados ossos promoveram redução de cálculo sem provocar fraturas durante o período avaliado. Um estudo brasileiro com 12 Beagles, por exemplo, não encontrou fraturas dentárias após 13 dias de fornecimento de tipos específicos de ossos bovinos autoclavados, embora tenha identificado lesões gengivais e fragmentos presos entre os dentes em alguns animais. Os próprios autores ressaltaram que a segurança no longo prazo ainda precisava ser estudada (Pinto et al., 2020). 

Portanto, um estudo pequeno e de curta duração não significa que qualquer osso seja seguro. As recomendações clínicas atuais continuam orientando cautela com objetos excessivamente duros.

 

O teste da unha: uma orientação prática utilizada na odontologia veterinária

Uma das maneiras mais simples de avaliar um mastigável antes de oferecê-lo é o chamado teste da unha.

Tente pressionar firmemente a superfície com a unha. Se o material for tão rígido que não seja possível produzir nenhuma marca, ele pode ser duro demais para uma mastigação segura.

A recomendação aparece tanto em material da Cornell University quanto nas diretrizes globais de odontologia da WSAVA de 2026 (Cornell University College of Veterinary Medicine; Niemiec et al., 2026).

E a regra de conseguir dobrar o brinquedo?

Ela também pode funcionar como regra prática conservadora, principalmente para brinquedos de borracha ou materiais sintéticos.

Recursos clínicos veterinários recomendam que brinquedos mastigáveis apresentem alguma capacidade de ceder ou flexionar quando comprimidos, em vez de se comportarem como uma peça totalmente rígida (VCA Animal Hospitals).

Mas há uma diferença importante: a diretriz formal que encontrei na WSAVA utiliza especificamente a capacidade de marcar o objeto com a unha. Portanto, para o artigo da Heroz, eu apresentaria assim:

Se o material não cede, não flexiona e nem pode ser marcado com a unha, vale reconsiderar antes de oferecê-lo ao cão.

Não é uma garantia absoluta de segurança, porque tamanho, formato, resistência, capacidade de fragmentação e comportamento individual também interferem no risco.

 

Um brinquedo macio demais também pode ser perigoso

Eliminar objetos extremamente duros não significa escolher qualquer objeto macio.

Um brinquedo que se rompe facilmente pode liberar fragmentos que sejam engolidos. Objetos pequenos ou pedaços de mastigáveis podem causar engasgo, obstrução esofágica ou gastrointestinal.

Por isso, dureza é apenas uma das características que precisam ser avaliadas. O brinquedo também deve ter tamanho apropriado, não se fragmentar facilmente e ser utilizado sob supervisão, principalmente por cães que tentam engolir os objetos.

Cornell recomenda evitar brinquedos ou ossos pequenos que possam ser engolidos e supervisionar a brincadeira, devido ao risco de obstruções gastrointestinais. 

 

Fragmentos também podem lesionar boca e garganta

Ossos e gravetos apresentam outro tipo de problema: podem quebrar ou formar pontas capazes de produzir ferimentos.

Fragmentos podem atingir língua, gengiva, palato e faringe. Corpos estranhos orofaríngeos, incluindo fragmentos de ossos e gravetos, são descritos na literatura veterinária e podem resultar em inflamação, abscessos e, em situações graves, comprometimento das vias aéreas.

Portanto, além da dureza, é importante observar como aquele material se comporta quando começa a se desgastar ou quebrar.

 

Brinquedos muito duros podem quebrar a mandíbula ou machucar o pescoço?

É importante evitar exageros nessa afirmação.

Traumas maxilofaciais podem envolver dentes, mandíbula, maxila e articulação temporomandibular. Entretanto, a evidência mais consistente relacionada especificamente a mastigáveis excessivamente duros é de trauma e desgaste dentário.

Fraturas de mandíbula podem ocorrer após traumas importantes. Também existem as chamadas fraturas patológicas, nas quais a mandíbula já está enfraquecida por doença periodontal avançada, neoplasia ou outras alterações e pode então fraturar após forças menores (Niemiec et al., 2026).

Já lesões cervicais ou cranianas não devem ser apresentadas como complicações comuns de simplesmente mastigar um brinquedo duro, porque não há base suficiente para generalizar dessa maneira.

A recomendação responsável é focar nos riscos comprovados: trauma dentário, desgaste, doença pulpar, lesões de tecidos da boca, fragmentação, engasgo e obstrução gastrointestinal, conforme o tipo de objeto.

 

Brinquedo duro limpa os dentes melhor?

Nem sempre — e dureza excessiva não deve ser confundida com benefício odontológico.

Produtos mastigáveis podem ajudar mecanicamente no controle da placa e do cálculo quando são especificamente desenvolvidos para isso, mas não é necessário transformar o brinquedo em uma superfície rígida como pedra.

As diretrizes da WSAVA reforçam que a escovação diária continua sendo o método mais eficaz de controle mecânico da placa bacteriana. Produtos mastigáveis podem atuar como complemento, particularmente nos dentes posteriores, desde que tenham formulação e segurança apropriadas (Niemiec et al., 2026).

Produtos com evidências publicadas ou aceitos pelo Veterinary Oral Health Council (VOHC) podem ser considerados dentro de um programa de cuidados bucais orientado pelo médico-veterinário.

 

Como escolher um brinquedo para mastigação?

Antes de oferecer um brinquedo ou mastigável, vale fazer uma avaliação simples: ele deve ter tamanho compatível com o cão, não ser facilmente engolido, não produzir pontas cortantes quando danificado e possuir alguma capacidade de ceder diante da força.

Para materiais destinados à mastigação, o teste da unha é uma referência prática importante. Também vale observar regularmente os brinquedos e substituí-los quando apresentarem rachaduras, fragmentos soltos, bordas cortantes ou alterações importantes de formato.

Nenhum brinquedo é completamente livre de riscos, e cães com força de mordida muito elevada, histórico de fraturas dentárias ou comportamento destrutivo podem precisar de recomendações individualizadas.

 

Quais sinais merecem avaliação veterinária?

Procure um médico-veterinário se observar mudança de cor de um dente, dente quebrado ou desgastado, ponto vermelho ou preto dentro do dente, sangramento, dor ao mastigar, recusa de brinquedos, preferência por alimentos mais macios, mastigação de apenas um lado, salivação aumentada, mau hálito, inchaço facial ou uma ferida que drena secreção próximo à boca ou abaixo do olho.

Mudanças de cor merecem atenção especial porque um dente pode apresentar comprometimento pulpar mesmo quando sua coroa ainda parece estruturalmente inteira.

A avaliação odontológica pode exigir radiografias intraorais, já que uma parte importante do dente e das estruturas ao seu redor não pode ser examinada apenas olhando a boca.

 

O objetivo não é impedir o cão de mastigar

Mastigar é um comportamento natural e pode trazer benefícios comportamentais e de enriquecimento ambiental.

A recomendação da medicina veterinária não é retirar todos os brinquedos, mas evitar transformar resistência extrema em sinônimo de qualidade.

Um brinquedo não precisa ser “indestrutível” para ser bom. Em odontologia veterinária, um material que sempre vence o dente durante a disputa de forças pode acabar sendo justamente o material que coloca esse dente em risco.

O princípio mais simples é: o brinquedo deve oferecer alguma capacidade de ceder antes que a estrutura dentária seja obrigada a fazê-lo.

 

Referências

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