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O latido faz parte da comunicação natural dos cães. Eles podem latir para chamar atenção, alertar sobre algo no ambiente, demonstrar excitação, medo, frustração ou desconforto, solicitar interação ou responder à presença de pessoas, animais e outros estímulos. Estudos mostram, inclusive, que as características do latido variam conforme o contexto em que ele ocorre e podem transmitir informações sobre o estado do animal (Pongrácz et al., 2010; Molnár et al., 2009). 

Por isso, um cão que late ocasionalmente não está necessariamente apresentando um problema comportamental. A atenção deve aumentar quando o comportamento se torna muito frequente, difícil de interromper, aparece associado a sinais de ansiedade ou interfere de maneira significativa na rotina do próprio cão e das pessoas ao redor.

 

Cão sentado e tranquilo dentro de casa enquanto sua responsável utiliza reforço positivo durante o treinamento, próximo a uma janela com estímulos externos.

 

Por que alguns cães latem mais do que outros?

Não existe uma única causa. O comportamento resulta da interação entre genética, temperamento, experiências anteriores, ambiente, estado emocional, saúde e aprendizagem.

Existem diferenças comportamentais associadas a raças e linhagens, mas a raça não determina sozinha como um indivíduo irá se comportar. Um grande estudo publicado na Science encontrou influência genética sobre diferentes características comportamentais, mas mostrou que a raça explicou apenas uma parcela relativamente pequena da variação comportamental observada entre cães individualmente (Morrill et al., 2022). 

Isso ajuda a entender por que dois cães da mesma raça podem apresentar comportamentos bastante diferentes. A rotina, as experiências, o aprendizado e o ambiente onde vivem também têm grande influência.

Um cão exposto constantemente a movimento na rua, pessoas passando em frente ao portão, outros cães, campainha, ruídos ou estímulos pelas janelas pode ter muito mais oportunidades de latir do que um cão que vive em um ambiente menos estimulante. Da mesma forma, comportamentos repetidos muitas vezes podem se tornar cada vez mais estabelecidos. A medicina comportamental veterinária recomenda justamente reduzir a repetição de comportamentos indesejados e modificar o ambiente quando necessário (Merck Veterinary Manual, 2025). 

 

Sem perceber, podemos ensinar o cão a latir mais

Um dos pontos mais importantes está na forma como as pessoas respondem ao latido.

Imagine que o cão começa a latir buscando atenção. O responsável se aproxima, conversa com ele, faz carinho, oferece um brinquedo ou entrega um petisco para fazê-lo parar.

Naquele momento, o cão pode aprender uma associação muito simples:

latir → receber atenção ou alguma coisa interessante.

Na aprendizagem, um comportamento que produz uma consequência considerada valiosa pelo animal tende a aumentar de frequência. Portanto, até mesmo broncas, olhares ou conversar com o cão podem funcionar como atenção para determinados indivíduos. O Merck Veterinary Manual descreve justamente o exemplo de cães que aprendem a latir para obter reação das pessoas (Merck Veterinary Manual, 2026). 

Isso, porém, precisa ser interpretado com cuidado. Nem todo latido deve simplesmente ser ignorado. Primeiro é necessário entender por que o cão está latindo. Medo, dor, ansiedade de separação, necessidade de eliminação ou algum problema clínico exigem uma abordagem diferente.

 

O que recompensar então?

O princípio mais útil é bastante simples: recompensar o comportamento que queremos ver novamente.

Se o cão estava latindo por atenção e se acalma, esse momento de tranquilidade pode ser reforçado com carinho, interação, brincadeira ou alimento, dependendo do que funciona para aquele animal.

No início do treinamento, a recompensa pode acontecer logo que o silêncio surge. Depois, progressivamente, o responsável pode aumentar o período de tranquilidade necessário antes da recompensa. O momento da recompensa é importante porque ela precisa estar claramente associada ao comportamento desejado (Merck Veterinary Manual, 2025). 

Portanto, não existe a necessidade de esperar sempre um número fixo de segundos. O objetivo é ajudar o cão a compreender que ficar tranquilo, olhar para o responsável, sentar, deitar ou ir para determinado local são comportamentos que produzem consequências positivas.

A American Veterinary Society of Animal Behavior recomenda métodos baseados em recompensa para treinamento e modificação comportamental e orienta evitar técnicas aversivas ou baseadas em dor, medo ou intimidação (AVSAB, 2021). 

 

Antecipar o latido pode ser mais eficiente do que tentar interrompê-lo

Um dos melhores momentos para agir é antes de o comportamento começar.

Se o responsável já sabe que o cão costuma latir quando alguém passa em frente à janela, quando chega uma visita ou quando outro cachorro aparece durante o passeio, é possível antecipar a situação.

Antes que o cão fique muito excitado, pode-se aumentar a distância do estímulo, direcionar a atenção para o responsável, pedir um comportamento que ele já conhece — como “senta”, “olha” ou “vem” — ou oferecer uma atividade apropriada.

Essa estratégia é compatível com princípios modernos de modificação comportamental, que procuram prevenir a repetição do comportamento indesejado e ensinar respostas alternativas. Barreiras visuais, distância do estímulo e mudanças ambientais também podem fazer parte do manejo (Merck Veterinary Manual, 2025). 

 

Um exemplo prático

Imagine um cão que sempre late quando vê pessoas pela janela. Em vez de esperar que ele comece uma sequência intensa de latidos, o responsável percebe a pessoa se aproximando e chama o cão antes da reação.

Ele vem.

O responsável pede “senta”.

O cão senta e permanece tranquilo.

Nesse momento, recebe uma recompensa.

Com repetição consistente e dentro de um nível de estímulo que o cão consiga administrar, ele passa a ter a oportunidade de aprender uma resposta diferente naquela situação.

 

E se o cão já começou a latir?

O primeiro passo não deveria ser gritar “para!” repetidamente.

Primeiro, observe o ambiente e tente identificar o que desencadeou o comportamento. Há alguém no corredor? Outro animal? Um ruído? O cão quer sair? Está assustado? Está solicitando interação?

Se for possível reduzir o estímulo sem criar conflito, faça isso. Fechar temporariamente uma cortina, aumentar a distância de outro cão durante o passeio ou retirar o animal de uma situação excessivamente estimulante pode ajudar.

Quando o cão recuperar a calma, pode-se solicitar um comportamento conhecido e recompensá-lo por essa resposta.

Comportamentos simples como sentar, deitar, permanecer sobre uma cama ou olhar para o responsável podem funcionar como alternativas ao comportamento indesejado. Na medicina comportamental, esse procedimento é conhecido como substituição de resposta: ensinar um comportamento apropriado para ocupar o lugar de uma resposta problemática (Merck Veterinary Manual, 2025). 

 

Não transforme o latido em uma disputa

Gritar com um cão que está latindo pode aumentar a excitação e, em alguns casos, a ansiedade. Métodos punitivos também podem gerar medo e outras consequências comportamentais indesejáveis.

A AVSAB recomenda que o treinamento de cães seja baseado em recompensas e afirma que métodos aversivos não são necessários para treinamento ou modificação de problemas comportamentais. 

O objetivo não é simplesmente “calar” o cão, mas compreender por que aquele comportamento ocorre e ensinar uma alternativa compatível com a situação.

 

Exercício físico ajuda, mas não resolve tudo

Um cão que passa grande parte do dia sem atividades pode encontrar no ambiente maneiras próprias de ocupar o tempo, incluindo observar janelas, patrulhar o portão e reagir repetidamente a estímulos.

Passeios, oportunidades adequadas de exploração, brincadeiras, interação social, enriquecimento ambiental e treinamento podem contribuir para uma rotina comportamentalmente mais equilibrada.

As diretrizes de comportamento da American Animal Hospital Association incluem enriquecimento ambiental, treinamento baseado em reforço positivo e atendimento das necessidades comportamentais entre os pilares de prevenção e manejo de problemas comportamentais (AAHA, 2015). PubMed

Entretanto, aumentar exercício físico indiscriminadamente não é uma solução universal. Um cão ansioso, com medo ou com uma condição médica não deixará necessariamente de latir porque caminhou mais. A intervenção precisa considerar a causa do comportamento.

 

Exercícios de comandos básicos podem ajudar

Treinar comportamentos como “senta”, “deita”, “fica”, “vem”, “olha” ou ir até uma cama pode ser muito útil.

Não porque esses comandos tenham algum efeito mágico sobre o latido, mas porque criam formas alternativas de comunicação entre o cão e o responsável.

Um cão que aprende a procurar o responsável, sentar e receber orientação diante de determinado estímulo passa a ter uma resposta diferente disponível além de simplesmente latir.

Esses exercícios também podem ser utilizados para reforçar períodos de calma e aumentar progressivamente a capacidade do cão de permanecer tranquilo na presença de distrações.

 

Quando não é apenas um problema de treinamento

Mudanças importantes no comportamento merecem atenção.

Um cão que praticamente não latia e passa a vocalizar excessivamente pode estar reagindo a mudanças ambientais, medo, dor, alterações sensoriais, ansiedade ou outras condições médicas e comportamentais.

Em cães idosos, mudanças comportamentais também podem acompanhar alterações cognitivas. Por isso, a avaliação veterinária faz parte da investigação de problemas comportamentais, especialmente quando o comportamento surge de maneira repentina ou muda significativamente de intensidade. As diretrizes veterinárias recomendam investigar condições médicas antes de considerar determinada alteração exclusivamente comportamental (AAHA, 2015; Merck Veterinary Manual, 2024–2025). 

Latidos associados a pânico quando o cão fica sozinho, tentativas de fuga, destruição, salivação excessiva, agressividade, medo intenso ou comportamentos repetitivos também justificam avaliação profissional.

 

Afinal, qual é a melhor maneira de diminuir os latidos?

Não existe uma fórmula única porque cães diferentes podem latir pelos mais diversos motivos.

De maneira geral, a abordagem mais consistente é identificar os gatilhos, atender às necessidades do animal, evitar a repetição excessiva do comportamento, antecipar situações previsíveis, ensinar respostas alternativas e recompensar os momentos de tranquilidade.

Também é importante aceitar que algum nível de vocalização continuará existindo. Latir faz parte do repertório natural dos cães e possui função comunicativa (Pongrácz et al., 2010). 

O objetivo não deveria ser criar um cão que nunca late, mas ajudá-lo a desenvolver respostas mais adequadas e proporcionar uma rotina em que ele consiga lidar melhor com os estímulos do ambiente.

Consistência, observação e compreensão do comportamento costumam produzir resultados muito melhores do que punições ou tentativas de encontrar uma solução instantânea.

 

Autor: Renan Sparremberger

 

Referências

American Animal Hospital Association — AAHA. Hammerle M, Horst C, Levine E, Overall K, Radosta L, Rafter-Ritchie M, Yin S. 2015 AAHA Canine and Feline Behavior Management Guidelines. Journal of the American Animal Hospital Association. 2015;51(4):205–221. DOI: 10.5326/JAAHA-MS-6527.
Disponível em: www.aaha.org/resources/2015-aaha-canine-and-feline-behavior-management-guidelines/

American Veterinary Society of Animal Behavior — AVSAB. Position Statement on Humane Dog Training. 2021.
Disponível em: https://avsab.org/wp-content/uploads/2021/08/AVSAB-Humane-Dog-Training-Position-Statement-2021.pdf

Merck Veterinary Manual. Landsberg GM. Behavior Modification in Dogs.
Disponível em: www.merckvetmanual.com/dog-owners/behavior-of-dogs/behavior-modification-in-dogs

Merck Veterinary Manual. Pankratz K. Treatment of Behavior Problems in Animals.
Disponível em: www.merckvetmanual.com/behavior/behavioral-medicine-introduction/treatment-of-behavior-problems-in-animals

Molnár C, Pongrácz P, Faragó T, Dóka A, Miklósi Á. Dogs discriminate between barks: the effect of context and identity of the caller. Behavioural Processes. 2009;82(2):198–201. DOI: 10.1016/j.beproc.2009.06.011.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19596426/

Morrill K, Hekman J, Li X, et al. Ancestry-inclusive dog genomics challenges popular breed stereotypes. Science. 2022;376(6592):eabk0639. DOI: 10.1126/science.abk0639.
Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9675396/

Pongrácz P, Molnár C, Miklósi Á. Barking in family dogs: an ethological approach. The Veterinary Journal. 2010;183(2):141–147. DOI: 10.1016/j.tvjl.2008.12.010.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19181546/

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